O governo brasileiro irritou-se com a vinculação da negociação do livre comércio entre o Mercosul e os Estados Unidos com o acordo da Argentina com o Fundo Monetário Internacional (FMI), anunciado anteontem. Primeiro, porque o Palácio do Planalto pretendia manter o acerto com os americanos sob sigilo, por enquanto, e iniciar as discussões com cautela. Segundo, porque teme que essa vinculação possa ser traduzida como uma pressão para que as negociações sejam concluídas, obrigatoriamente, com a assinatura de um tratado. Fontes do Palácio do Planalto defenderam que foi o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso quem sugeriu ao presidente americano, George Bush, a discussão de um acordo com o Mercosul, como alternativa para as dificuldades enfrentadas nas discussões da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
A primeira rodada, para definir a amplitude e as regras para a discussão, está marcada para os próximos dias 3 a 5 de setembro, em Montevidéu (Uruguai). Conforme informou uma fonte do Palácio do Planalto, o governo está convencido que as negociações com os Estados Unidos terão de seguir a ''agenda do Mercosul'' mais especificamente, do Brasil. Ou seja, somente haverá conversa se os americanos estiverem dispostos a discutir sua legislação antidumping, as barreiras não-tarifárias que impõem ao comércio e ainda o acesso a seu mercado agrícola e se não houver pressão para a inclusão de cláusulas trabalhistas e ambientais.
O Palácio do Planalto, entretanto, está consciente do pesado interesse dos Estados Unidos na abertura do mercado de serviços, na redução de tarifas para produtos industriais e na alteração das leis de patentes do Brasil e da Argentina além de sua resistência em mexer nas barreiras que o Mercosul pretende derrubar e na defesa das cláusulas. ''Não estamos fechando um acordo. Estamos apenas começando um primeiro estágio, de conversas sobre os pontos de convergência.'' pondera a mesma fonte.
A iniciativa teve como base a convicção do governo e do Mercosul de que a Alca tornou-se inviável, uma vez que será impossível conciliar os interesses de regiões tão diferentes como a América do Sul, o Caribe, o México e o próprio EUA. Os analistas do governo brasileiro ainda acreditam que a crise interna vivida pelo bloco teria esgotado as possibilidades de crescimento do comércio dentro da própria região. Essa situação teria reforçado a necessidade de o Mercosul expandir suas fronteiras, por meio de acordos comerciais no formato 4+1, como o que vem negociando com a União Européia e com a Comunidade Andina.

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