SÃO PAULO - O presidente Fernando Henrique Cardoso visitará pela primeira vez uma central sindical e deve conversar com sindicalistas sobre um assunto tabu para este governo: o desemprego. Quinta-feira, às 16 horas, ele estará na sede da Força Sindical, em São Paulo, e assinará um protocolo de intenções para que movimento sindical, governo e universidades públicas passem a trabalhar em conjunto na qualificação e na recolocação de empregados demitidos.
‘‘Não podemos mais requalificar os demitidos às cegas’’, afirmou o presidente da central, Luiz Antônio de Medeiros. ‘‘Pesquisas devem nos indicar em que treinar os trabalhadores e para onde encaminhá-los.’’ Sexta-feira Fernando Henrique vai se encontrar com o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, durante visita à fábrica da Ford, em São Bernardo do Campo (SP).
A requalificação de desempregados como saída para o duro ritmo de demissões na indústria virou discurso obrigatório de políticos, sindicalistas e principalmente do ministro do Trabalho, Paulo Paiva. A idéia é criar oportunidades para demitidos com escassas as possibilidades de recolocação _ os que saíram da indústria, por exemplo.
Mas, segundo Medeiros, as tentativas de requalificação hoje são muito ineficientes e improvisadas. ‘‘Devemos treinar desempregados para fazer o quê?’’, pergunta.
Ilusão O uso do FGTS e das multas por rescisão de contratos para abertura de negócio próprio é a mais propalada forma de tirar o demitido da angústia de sua condição. Mas normalmente costuma resultar em fracasso retumbante - e, na tentativa de recuperar da aventura, o novo ‘‘empresário’’ rapidamente volta para a condição anterior, de desempregado, só que em situação pior, sem recursos e muitas vezes com dívidas, feitas no entusiasmo do seu ‘‘empreendimento’’.
De acordo com consultor de Marketing do Sebrae, Ricardo Poli de Campos, o resultado desse tiroteio no escuro é que 80% das empresas abertas no Brasil acabam fechadas em dois anos.
A ilusão do ‘‘negócio próprio’’ cai por terra por três fatores básicos, de acordo com Campos: o desempregado não tem informações sobre o ramo no qual se lança; ele precisa sobreviver daquele empreendimento desde o primeiro mês, sem investimentos no longo prazo ou reservas para momentos difíceis; ele não sabe avaliar sua capacidade de competir em cada mercado e acaba sendo mais um, sem nenhum diferencial, no superlotado setor de serviços, para o qual todo demitido procura migrar.
‘‘Reciclar mão-de-obra é coisa séria e governo, sindicatos e universidades têm de se envolver nisso’’, avaliou Medeiros. ‘‘Do contrário, faremos esforços descoordenados e o desempregado, mesmo tendo se qualificado para exercer alguma nova atividade, continuará sem ocupação’’, acrescentou o presidente da Força Sindical.

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