O presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou o discurso com que inaugurou ontem a 4ª Reunião Ministerial da Alca (Área de Livre Comércio das Américas) para explicitar a pouca pressa que o governo brasileiro tem em relação à constituição desse bloco comercial. ‘‘Não devemos ter pressa para avançar. A Alca que nós queremos não deve constituir uma vitória de curto prazo daqueles que buscam negócios imediatos’’, disse FHC.
É uma alusão praticamente explícita aos Estados Unidos, que querem iniciar já em 1998 a negociação para a derrubada de barreiras comerciais entre os 34 países que comporão a Alca (todos os das Américas, menos Cuba). O presidente deixou igualmente claro que o governo brasileiro quer um tempo para permitir que sua estrutura econômica esteja preparada, ao dizer que a Alca ‘‘depende de que todos nós estejamos preparados para dar esse imenso salto qualitativo nas nossas relações hemisféricas’’.
FHC fez também cerrada defesa do Mercosul, o bloco entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Definiu-o claramente como ‘‘uma prioridade da nossa política externa e comercial’’. E emendou: ‘‘A ele não renunciamos, nem pensamos que seja útil, para nós e para a própria Alca, que essa poderosa alavanca do comércio intra-regional se dilua mais tarde em uma área de livre comércio das Américas’’.
Aí também há uma alusão velada aos Estados Unidos, que nunca escondeu a intenção de construir a Alca pela absorção de cada país ao Nafta (o bloco EUA/Canadá/México), o que dissolveria todos os demais acordos regionais, Mercosul inclusive.
FHC introduziu um novo elemento na sua argumentação para pedir tempo para a negociação da Alca. Citou todas as reformas que seu governo está fazendo ou tentando fazer, das privatizações à estabilização da economia, para acrescentar: ‘‘É preciso amadurecer e consolidar essa verdadeira revolução antes de que nos lancemos a compromissos que só poderemos cumprir se tivermos as condições objetivas, a força e o poder para cumpri-los’’.
O 4º encontro ministerial começa, para efeitos de negociação, apenas hoje, com a tarefa de tentar desatar os nós que os vice-ministros não conseguiram eliminar no texto da declaração final. Mesmo que os ministros limpem o texto, o fato básico é que quase nada se avançou até agora no ponto central das divergências entre Estados Unidos e Mercosul: os norte-americanos querem iniciar, em 98, negociações para derrubar as barreiras ao comércio de bens e serviços. O Mercosul quer deixar tais negociações para 2003.

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