O presidente Fernando Henrique Cardoso fez ontem um apelo aos banqueiros e aos governos estrangeiros para que ‘‘entendam a necessidade’’ do Brasil por mais linhas de financiamento. ‘‘Espero que os bancos internacionais, que os governos dos países que nos apoiaram entendam a necessidade de que se ampliem os créditos normais que financiam países como o Brasil’’, disse em pronunciamento de nove minutos, quando tentou tranquilizar os mercados financeiros agitados com a saída de Gustavo Franco
da presidência do Banco Central.
Fernando Henrique afirmou que a mudança na política cambial irá criar um ‘‘espaço’’ para a redução dos juros, mas advertiu: as modificações não significam a ‘‘frouxidão’’ da política monetária e irão ‘‘facilitar a continuidade do compromisso do governo do Brasil de manter política fiscal, política monetária e política cambial com regras claras’’. Tendo ao lado o ministro da Fazenda, Pedro Malan, o presidente reafirmou que ‘‘não haverá mudança de rumo da política econômica’’ com a saída de Franco. E insistiu: ‘‘O governo honrará sempre todos os seus contratos internos e externos porque isso é a base da credibilidade’’.
Falando pausadamente e em tom grave, na sala de ‘‘briefings’’ do Planalto, o presidente disse que o governo dispõe ‘‘dos meios necessários’’ para que sejam cumpridos quaisquer contratos. A afirmação tem por finalidade mostrar ao mercado financeiro nacional e internacional que há mecanismos legais de evitar medidas como a moratória das dívidas anunciada pelo governador de Minas Gerais, Itamar Franco. O presidente fez questão de enfatizar ‘‘o nítido avanço’’ da aprovação do ajuste fiscal no Congresso - com a aprovação de 70% das medidas - e o ‘‘apoio da imensa maioria dos governadores’’ .
‘‘Recebemos apoio, e eu agradeço, da imensa maioria dos governadores desse País, que com noção de responsabilidade, viram que, mais importante do que tudo, é a nossa união, a harmonia na Federação, para que nós possamos fazer com que o País avance’’, disse o presidente.
Fernando Henrique reafirmou a disposição do governo em restabelecer condições para o crescimento sustentado e o ‘‘trabalho persistente’’ do governo para reorganizar suas finanças públicas e fazer o ajuste fiscal. ‘‘Isso é condição básica para que o Brasil tenha credibilidade e estamos avançando nesta direção.’’
Segundo Fernando Henrique, o presidente interino do BC, Francisco Lopes, ao apresentar ontem ‘‘ao País e aos mercados internacionais’’ as decisões anunciadas, mostrou que o governo tem ‘‘inventividade técnica’’ para permitir a queda dos juros. ‘‘Uma redução progressiva dos juros, desde que seja ancorada na política fiscal e desde que haja, como há, compromisso firme com as regras que estamos adotando’’.
Ele afirmou ter ‘‘convicção’’ de que o Fundo Monetário Internacional expressará a crença de que tudo o governo está fazendo ‘‘vai na direção do melhor para o Brasil e para o conjunto dos países.’’ Fernando Henrique defendeu ‘‘a solidariedade’’ entre os países diante da globalização e lembrou que o Brasil ‘‘está se mostrando, mais um vez, responsável e solidário, assumindo decisões, mas com consciência, com serenidade, firmeza e competência técnica’’.
O presidente avisou que havia conversado com o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e com o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP) antes do pronunciamento. Segundo ele, os dois estão comprometidos com o esforço de aprovar as medidas do ajuste e há uma ‘‘apoio sustentado do Parlamento’’ ao que o governo está fazendo. ‘‘O apoio dos partidos tem sido e será constante nessa direção’’, afirmou. ‘‘Isso é essencial e é essencial que o Brasil perceba que estamos mudando nosso regime fiscal.’’
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, que falou após o presidente, destacou que sem o ajuste fiscal a flexibilição cambial anunciada ontem não pode ser vista como um substitutivo para o ajuste fiscal. Malan lembrou ainda que conversaria ‘‘ao longo das próximas horas e nos próximos dias’’ e que esperava que as modificações no câmbio feitas hoje fossem compreendidas. ‘‘O que fizemos foi uma flexibilização da política cambial e é um passo, não uma mudança drástica’’, insistiu. ‘‘É uma mudança na direção da maior flexibilidade em relação ao sistema anterior.’’

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