O presidente Fernando Henrique Cardoso inicia hoje, em La Paz, na Bolívia, uma visita de Estado focada na crise energética brasileira. Seu objetivo será tornar viável o aumento das importações do gás natural boliviano em 10 milhões de metros cúbicos diários e, dessa forma, assegurar a expansão da geração em usinas termoelétricas - uma das principais vertentes do plano emergencial do governo de aumento de oferta de energia até o final de 2003.
Segundo uma das fontes que têm participado de negociações preliminares entre o governo boliviano e a Petrobras, não existem dificuldades para um compromisso formal entre os dois países. Um acordo deverá ser assinado amanhã por Fernando Henrique e pelo presidente da Bolívia, Hugo Banzer, quando ambos visitarão as reservas de gás da Petrobras em Yacuíba, no Sul do país. Amanhã, eles voltarão a se encontrar em Santa Cruz de La Sierra. O presidente deverá retornar ao Brasil apenas na quinta. Para a Bolívia, o aumento das exportações de gás natural é relevante.
Significa mais divisas e mais investimentos diretos. De acordo com o contrato vigente, o país vizinho se limitaria a enviar ao Brasil apenas 8 milhões de metros cúbicos diários até 2007. A partir daí, aumentaria para 16 milhões até alcançar 30 milhões, a capacidade máxima das atuais instalações. O governo brasileiro, entretanto, conta com a antecipação dessa cota futura de 30 milhões até o final de 2003 e ainda quer mais 10 milhões. Trata-se do volume total considerado necessário para atender as usinas termoelétricas que seriam construídas em curto prazo - a maioria das quais, com participação da Petrobras.
Se no âmbito diplomático o interesse de expansão das compras de gás boliviano é compartilhado dos dois lados, a execução não segue a mesma lógica. A mesma fonte explicou à AE que um dos entraves para a importação de mais 10 milhões de metros cúbicos de gás natural da Bolívia está na necessidade de expansão do gasoduto, tanto do lado brasileiro como do boliviano. Outro problema diz respeito ao caráter flutuante do preço do insumo, como commodity, que tende a variar conforme a cotação do petróleo no mercado internacional.
Para o primeiro entrave, a Petrobras negocia a compra de uma parcela do gasoduto boliviano, que hoje pertence à Enron. Uma vez fechado o contrato, a estatal poderia levar os demais sócios a concordarem com as obras nas tubulações existentes. Outra alternativa em estudo pela estatal brasileira é a construção de um gasoduto próprio na Bolívia, que possa ligar suas reservas de gás à fronteira com o Brasil. Mas essa opção esbarra em requisitos ambientais e pode demorar a ser efetivada.
Para o segundo entrave, a solução pleiteada pela Petrobras é a negociação com o governo boliviano de um teto e de um piso para a variação do preço do gás.

mockup