O presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que, se o Congresso não indicar as fontes para compensar o reajuste de 17,5% na tabela do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF), agirá ''de forma leviana e precipitada''.
Fernando Henrique sinalizou que não vetará o projeto e avisou que caberá ao Legislativo ''resolver o que fazer com o Orçamento'', encontrando as fontes para bancar a diferença e tornando compatíveis os novos gastos com a disponibilidade financeira e a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). O presidente advertiu ainda que o governo não tem dinheiro e que o que existe vem da cobrança de impostos.
''Reduzir Imposto de Renda é uma vontade de todos nós, minha também'', ironizou o presidente. ''Se eu puder aliviar o Imposto de Renda da classe média, vou fazê-lo, com prazer. Do povo, então, mais ainda porque o que me interessa é encontrar uma solução boa'', declarou, em mais uma acusação de que o Congresso não faz as contas para aumentar os gastos do governo.
Depois de considerar ''importante'' reajustar a tabela do IR, ele avisou que ''não se pode dar com uma mão e tirar com a outra''. ''Se eu puder cortar mais imposto, fico feliz, é uma maravilha. Mas deixa o Congresso resolver o que vai fazer. Tem de fazer conta.''
Para Fernando Henrique, ''a classe média tem razão de estar reclamando, as classes populares, também''. Na opinião dele, ''todos têm razão''. ''Mas precisamos de dinheiro e não de razão.''
Indagado sobre a possibilidade de os parlamentares derrubarem um possível provável veto à proposta, o presidente afirmou que nunca falou em vetar e que nada temia. ''Quem teme é o País porque, se o Congresso agir com responsabilidade, não há o que temer. Mas, se agir de forma leviana e precipitada, quem perde é o País, e quem vai pagar é o povo.'' Em seguida, tentou amenizar as críticas, lembrando que ''sempre teve uma relação positiva com o Congresso''. Ele acrescentou: ''Tenho certeza que os parlamentares vão ajudar a definir as fontes verdadeiras, legítimas, para pagar essa diferença (do reajuste da tabela), que é de R$ 3,6 bilhões.''
As declarações do presidente foram dadas na manhã de ontem, ao chegar à Granja do Torto, onde participou de uma reunião de avaliação dos programas sociais desenvolvidos pelo governo. Mais tarde, no discurso, Fernando Henrique avisou que ''o governo não tem dinheiro'' e que todos os recursos para as idéias sociais vêm da cobrança de tributos.
''O dinheiro público só tem uma palavra: imposto. A questão é saber se está usando (o dinheiro) bem ou mal'', comentou o presidente, advertindo que ''as autoridades monetárias vão ter de explicar o que fizeram com o dinheiro do País para contrapor a avaliação e evitar a desculpa de que uns não pagam impostos porque não sabem onde eles são aplicados.''
Ao fazer um balanço dos dispêndios sociais, o presidente admitiu que não conta com o R$ 1,8 bilhão referente à perda com o reajuste da tabela do IRPF. De acordo com Fernando Henrique, os R$ 29 bilhões arrecadados com os impostos de pessoas física (R$ 13 bilhões) e jurídica (R$ 16 bilhões) são distribuídos entre as populações carentes, sem intermediários, clientelismo e fisiologismo.
''Como o Congresso modificou o IRPF, nós temos de deduzir desses R$ 13 bilhões, mais ou menos, R$ 1,8 bilhão, que é a metade do que vai corresponder a essa última decisão do Congresso'', afirmou. ''Isso significa que todo o Imposto de Renda de Pessoa Física e de Pessoa Jurídica não serão mais suficientes para cobrir esses gastos'', completou, num aceno de que não proibirá o reajuste, mas quer que o Congresso encontre as fontes para cobrir a diferença de caixa.

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