A redução de até 20% no preço da gasolina nos postos, anunciada pelo presidente FHC no fim do ano passado, foi fruto de péssimo assessoramento, na opinião do ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) David Zylbersztajn. ‘‘Algum burocrata infeliz e irresponsável deu essa notícia para ele (Fernando Henrique), que entrou de boa-fé, porque não é um técnico’’, comentou Zylbersztajn, que cumpre quarentena depois da saída do cargo. Para ele, o preço dos combustíveis continuará caindo. Talvez não chegue aos 20%, ‘‘mas o que importa agora é a tendência de queda’’.
A liberação da importação de combustíveis poderá contribuir, mas apenas com impactos pontuais, acredita Gabriel Kropsch, operador da trading inglesa Tramp Oil. A empresa foi a primeira a solicitar da ANP autorização para importar. ‘‘Ainda não foi oficializada a autorização, que tem de ser publicada em Diário Oficial’’, explica Kropsch.
Ele lembra que o consumo de gasolina hoje no País é muito elevado, em torno de 60 milhões de litros por dia. A empresa não informa a quantidade de combustível do pedido, mas, segundo informações da ANP, foram 30 milhões de litros, distribuídos por um período não divulgado.
‘‘A gasolina vendida nas refinarias nacionais não está cara, mas no mercado internacional o preço muda diariamente. São estas oportunidades que iremos buscar, sempre no mercado spot (compras à vista)’’, diz Kropsch. As tradings importarão combustível para revender o produto a distribuidoras ou grandes empresas consumidoras. Não poderão revender diretamente para postos de gasolina.
Os volumes não são expressivos, se comparados ao consumo nacional. A paulista Comércio e Indústria Brasileira (Coinbra), por exemplo, uma das quatro que têm pedido tramitando na ANP, solicitou aval para compra de 60 mil litros de gasolina no mercado externo, o que corresponde a dois caminhões-tanque.
Para Zylbersztajn, os reflexos da abertura no mercado de combustíveis são de média e longa maturação. ‘‘Quem mantiver uma margem exagerada de lucro simplesmente não vai vender. O mercado se encarregará de regular. Caberá aos órgãos do governo responsáveis pela ordem econômica garantir o mercado concorrencial’’, diz ele.
O diretor do Sindicato do Comércio Varejista do Rio de Janeiro (Sindcomb) Marco Mateus disse que a declaração do presidente Fernando Henrique foi ‘‘um pouco irresponsável porque criou a expectativa de que o preço cairia 20%’’. De acordo com ele, o preço da gasolina já baixou 16% no Rio, para R$ 1,57 em média, e não há espaço para cair mais, ‘‘a não ser R$ 0,01 ou R$ 0,02, por causa da concorrência’’.

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