Em discurso de uma hora e meia, ilustrado com 22 gráficos e tabelas, o presidente Fernando Henrique Cardoso rejeitou ontem as críticas dos ‘‘falsos profetas’’ e traçou um quadro positivo do Brasil. ‘‘Alguns dizem que o País está de mal a pior, mas não é verdade, pode não estar de mal a melhor, mas está de mal a menos mal, pelo menos’’, disse. O presidente reconheceu que a economia brasileira ainda está vulnerável a fatores externos. Comemorou, porém, o fato de as reservas não serem ‘‘compostas por hot money’’, mas principalmente por investimentos diretos ou empréstimos de longo prazo.
FHC alertou para o fato de o Brasil ter de aumentar a sua capacidade de exportação. ‘‘Senão, vamos ter fragilidade externa’’. O presidente fez o discurso na abertura do 12º Fórum Nacional, no BNDES, para uma platéia de economistas, políticos e empresários. Segundo o presidente, apesar da desvalorização do real, as exportações cresceram porque o Brasil não sofreu consequências tão negativas quanto outros países que tomaram a mesma medida com suas moedas.
Uma das tabelas apresentadas pelo presidente mostrou que as exportações aumentaram, apesar da queda de preços no mercado internacional. As exportações, no primeiro trimestre deste ano, foram 34,5% maiores do que no mesmo período de 1997, embora o preço tenha diminuído 16,3%.
O presidente fez questão de não dar a impressão de excesso de entusiasmo. Citou o político e pensador italiano Antonio Gramsci ao comentar que fazia um apanhado ‘‘realista e utópico, pois combina o ceticismo da razão com o necessário otimismo da vontade.’’ E brincou: ‘‘Não se pode dormir nos louros, muito menos nós, que somos morenos, e não temos tantos louros assim.’’
Nas tabelas, há várias comparações do Brasil de agora com o das décadas de 70 e 80 e do início dos anos 90. FHC mostrou alguns picos de prosperidade que combinaram com os planos Cruzado e Collor, mas lembrou que os índices sempre pioravam, porque não havia estabilidade duradoura. Uma das tabelas ressaltadas pelo presidente foi a de renda familiar anual per capita, em que 1998 aparece com o melhor resultado, de R$ 3.440 por família. ‘‘O avanço tem se mantido sustentado, à diferença do ocorrido em períodos anteriores, quando houve picos de elevação seguidos de reduções igualmente substanciais’’, disse. Em 1986, mostrou o presidente, a renda familiar anual chegou a R$ 3.376, passando dois anos mais tarde para R$ 2.618. O menor resultado entre 1977 e o ano passado foi em 1983, com R$ 2.146 de renda anual por família.
Também foi apresentada a proporção de pobres e ressaltada a queda de 44,2% da população, em 1994, para 32,7%, em 1998, o que prova a dimuição da pobreza motivada pelo Plano Real. A proporção de pobres mais baixa do país aconteceu em 1986, na fase ainda bem sucedida do Plano Cruzado. ‘‘Não está bom, mas houve avanço. Ter 32% de pobreza não basta, tem que ser menos’’.
No setor social, o presidente mostrou a queda na mortalidade infantil, no analfabetismo e o aumento do percentual de crianças que estudam. Na hora de apresentar uma das tabelas de educação, mostrando que em três anos houve resultados melhores do que nos dez anos anteriores, preferiu não entrar em detalhes. ‘‘Pode passar adiante, senão parece propaganda do governo.’’
FHC ressaltou que em momento algum estava prevendo um ‘‘futuro fácil’’. Citou, por exemplo, a necessidade de tirar 300 mil crianças do trabalho escravo, apesar de 150 mil já terem trocado o emprego forçado pela escola.

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