Kelly Velásquez
France Presse
De Roma
O presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso denunciou ontem em Roma as ‘‘assimetrias’’ do comércio internacional como uma das causas da pobreza no mundo. FHC, que se dirigia aos 179 ministros e representantes presentes na 30ª conferência bianual da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), fez um balanço das conquistas e das dificuldades encontradas durante seus cinco anos de governo para combater a fome e a pobreza.
‘‘Desejo igualmente fazer ouvir neste mais elevado forum a preocupação do Brasil com as assimetrias que continuamos observando nas relações entre os Estados, sobretudo no âmbito do comércio internacional, as quais afetam imediatamente o bem-estar de nossas populações’’, afirmou FHC.
Em seu discurso que durou cerca de meia hora, ele anunciou que o Brasil espera que na chamada Rodada do Milênio, cujas reuniões começam no final do mês nos Estados Unidos, ‘‘se dissolvam os redutos autárquicos, protecionistas, sobretudo os que parecem se afirmar nos países de maior poder’’.
Referia-se novamente, como o fez em vários foruns, às políticas de subsídios, às barreiras tarifárias e ao protecionismo para com os produtos agrícolas por parte dos países em desenvolvimento, aplicados especialmente pelos países da União Européia e dos Estados Unidos.
Ao ilustrar os programas sociais fomentados pelo Brasil, depois de eliminar ‘‘a perversa taxa inflacionária’’, como chamou, ele denunciou duramente a burocracia, herdada de um sistema ‘‘clientelista’’, que impede ‘‘uma melhor qualidade do gasto público’’. ‘‘No caso do Brasil não se trata de recursos mas do modo como são empregados’’, disse assinalando que 20% do PIB se destinam à despesa social, porcentagem que considera alta.
FHC, primeiro presidente que fala na assembléia da FAO, depois da reeleição sábado passado – com o apoio do Brasil – do senegalês Jacques Diouf, apresentou as estatísticas de seu governo na luta contra a pobreza. ‘‘Entre 1993 e 1995 a porcentagem de pobres caiu de 30,7% a 20,5% da população de 160 milhões’’, disse, referindo-se em particular à sociedade rural. ‘‘Estamos construindo um novo mundo rural’’, assinalou citando o Plano de Reforma Agrária.
‘‘Em quatro anos assentamos mais de 280 mil famílias, ou seja um milhão e meio de pessoas aproximadamente, superando assim a soma dos assentamentos totais realizados nos 30 anos anteriores’’, frisou. ‘‘A área expropriada para a reforma agrária de 1995 a 1998 foi de 7 milhões de hectares aproximadamente, equivalente ao território da Irlanda ou ao de duas Bélgicas’’, disse, tentanto ilustrar as dimensões do que significa ‘‘democratizar o acesso à terra’’ no Brasil.

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