Preocupado com a reação da sociedade às medidas duras anunciadas ontem, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez, no final da tarde, novo pronunciamento à Nação para explicar o pacote. Mais uma vez culpou o Congresso pelo atraso na votação das reformas, que, segundo ele, poderiam ter evitado o pacote. ‘‘Se tivéssemos já as reformas talvez não precisaríamos hoje de medidas tão duras’’, disse, após reconhecer que elas poderão lhe trazer impopularidade. Afirmou não estar preocupado com isto, apenas com o País.
Ao dizer que as medidas não vão recair somente sobre um setor em especial, Fernando Henrique garantiu que o pacote não é inflacionário e que não atingirá a cesta básica ou o salário do trabalhador. Acentuou que ‘‘alguns’’ poderiam dizer que a ‘‘pequena elevação’’ do preço da gasolina poderia gerar aumento do custo de vida. O presidente citou dados da Fipe, da Universidade de São Paulo, que mostram que o impacto na inflação no primeiro mês será de 0,21%, segundo ele, ‘‘praticamente nada’’.
‘‘A inflação não voltará na medida em que o real for mantido forte’’, assegurou. De acordo com o presidente, o pior imposto é a inflação. ‘‘Não são medidas que visem a confiscar poupança e criar situações de desrespeito aos direitos estabelecidos’’, declarou, referindo-se ao confisco da poupança no início do governo Collor.
Fernando Henrique disse que, por causa da crise asiática, o governo teve de agir mais depressa. Segundo ele, se o Congresso já tivesse votado as reformas talvez as medidas não precisassem ser adotadas. Em seguida, afagou os parlamentares afirmando que eles têm apoiado as reformas, mas que é preciso continuar a votá-las.
Para o presidente, assim que for recobrada a confiança no País, em decorrência das medidas adotadas, as taxas de juros poderão ser reduzidas. Na sua opinião, isto mostra que a atual política brasileira será mantida. ‘‘A política brasileira não vai mudar ao sabor de alguma modificação momentânea’’, avisou ele, anunciando ainda que as privatizações também vão continuar.
Fernando Henrique começou seu pronunciamento assumindo a responsabilidade pelas ‘‘duras medidas’’. ‘‘Não poderíamos incorrer em erro nem por omissão, nem por dúvidas’’, afirmou, lembrando que em outros países houve desvalorização de 40% da moeda, como na Ásia, que, acredita, trazem de volta a inflação.

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