FHC cobra mais abertura dos países ricos
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sexta-feira, 15 de dezembro de 2000
Clóvis Rossi Agência Folha De Florianópolis 
O presidente Fernando Henrique Cardoso cobrou ontem dos países desenvolvidos um acesso verdadeiro aos seus mercados. Nós não queremos simplesmente abrir aqui, para importar, importar e importar, e nós não exportarmos nada, disse Fernando Henrique em improvisada entrevista coletiva pouco antes de começar a 19ª Reunião do Conselho do Mercosul, a Cúpula do Mercosul.
O presidente acrescentou que não se trata de discutir apenas a redução das tarifas de importação, porque elas vão baixar mesmo. Disse que se trata de discutir as barreiras não-tarifárias, senão não adianta. Baixa a tarifa, mas depois tem barreira não-tarifária e um protecionismo danado.
O presidente chegou a dizer que, se os Estados Unidos estiverem dispostos a dar acesso em seu mercado ao aço, suco de laranja e calçados brasileiros, negocia a Alca amanhã, e não apenas em 2005, o prazo originalmente acertado para a implantação da Alca.
A Alca é a Área de Livre Comércio das Américas, prevista para englobar todos os 34 países americanos, menos Cuba. Mas, acrescentou FHC, se não houver essa discussão, marcar data não tem sentido.
As afirmações do presidente são uma óbvia alusão à proposta de Charlene Barshefsky, a responsável pelo comércio internacional dos EUA, que sugeriu antecipar para 2003 o fim das negociações para implantação da Alca.
Mas fazem também parte do novo discurso da diplomacia brasileira, mais afirmativo em relação à Alca, depois de o Brasil ter sido sistematicamente acusado pelos Estados Unidos de retardar as negociações. O presidente lembrou que foi o Mercosul quem mais propôs até agora pontos concretos de negociação em relação à Alca. Os EUA, de seu lado, como lembrou o próprio FHC, querem tratar de outras questões, dos investimentos, patentes, serviços. FHC lembrou a conversa que teve com o presidente norte-americano, Bill Clinton, na visita deste ao Brasil. Ele entendeu muito bem que não se trata de fortalecer o Mercosul para postergar a Alca. Trata-se de organizar melhor o nosso mercado e a nossa capacidade competitiva para que possamos entrar não às cegas numa discussão dessa natureza (a Alca).
O presidente lembrou também que, em todas as suas viagens à Europa, tem insistido em um acordo entre o Mercosul e a União Européia, igualmente em torno de uma área de livre comércio entre os blocos.
FHC cobrou também dos EUA, como vem fazendo sistematicamente a diplomacia brasileira, o fast track (mecanismo pelo qual o Congresso autoriza o Executivo a negociar tratados comerciais que, depois, o Parlamento aprova ou rejeita em bloco, mas não pode emendar).
FHC recusou-se a responder a Richard Fisher, segundo homem do comércio internacional americano, que chamou de infantil a suposta resistência brasileira à Alca. O problema não é saber o que fala um funcionário de menor categoria, mas qual é o nosso interesse.
Ontem, o governo brasileiro saiu ao contra-ataque no caso da Alca, passando a culpar os EUA pela suposta falta de avanços na iniciativa. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, fez questão de ignorar a proposta de Charlene Barshefsky, a chefe do Comércio norte-americano, de antecipar para 2003 o fim das negociações para a criação da Alca.


