O presidente Fernando Henrique Cardoso abriu um diálogo, na última sexta-feira, com seu colega argentino Fernando de la Rúa, que poderá levar a uma solução para o conflito que envolve os dois países. Por meio de uma carta, FHC reiterou que sempre apoiou as medidas econômicas adotadas pela Argentina, mesmo aquelas de exceção no Mercosul, mas que se considerou surpreendido pela violação argentina às regras da união aduaneira. A resposta de De la Rúa, em telefonema na noite de domingo ao colega brasileiro, levou as cúpulas dos ministérios da Fazenda e das Relações Exteriores a tratarem, ontem, da reação do Brasil a uma eventual posição argentina. A decisão será submetida a uma reunião extraordinária da Câmara de Comércio Exterior (Camex), que ocorrerá quarta ou na quinta-feira.
O ‘‘diálogo’’ entre os presidentes foi confirmado ontem pelo porta-voz da Presidência da República, Georges LamaziSre. Entretanto, uma fonte do Palácio do Planalto informou que dificilmente a solução para o mais recente confronto comercial entre os dois principais sócios do Mercosul se dará em negociações diretas entre os presidentes. ‘‘Os governos estão em permanente contato. Mas a negociação, de fato, se dá entre seus ministérios e de suas chancelarias’’, afirmou.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, reuniu-se ontem com o assessor internacional do Ministério da Fazenda, Marcus Caramuru, e com a secretária de Comércio Exterior, Lytha Spíndola. Eles analisaram a possibilidade de o governo argentino manter a resolução 258/01, que reduziu a margem de preferência tarifária para produtos brasileiros dos setores de informática e telecomunicações, bens de capital e automotivo. Também avaliaram a hipótese de a Argentina pedir um ‘‘waver’’, ou seja, uma suspensão temporária de suas obrigações como membro do Mercosul ou mesmo sua saída do bloco.
Os mesmos temas serão retomados nas discussões entre todos os ministros da Camex. A intenção do governo será encontrar uma alternativa para que, uma eventual saída ou suspensão da Argentina, não inviabilize completamente as negociações em andamento sobre o livre comércio entre o Mercosul e a União Européia. Conforme afirmou à AE um dos negociadores do bloco europeu, o mandato concedido pelos países que o integram foi para uma discussão com o Mercosul – não com uma união aduaneira desmantelada ou com seus países, individualmente.
Sem a Argentina no Mercosul, a União Européia teria de negociar internamente um novo pedido de mandato, tarefa que demandaria mais tempo. ‘‘Nós estamos dando uma carta de confiança para o Mercosul. Daqui para a frente, a negociação depende de um entendimento interno do Mercosul’’.
O porta-voz da Presidência, George LamaziSre, disse ontem que a afirmação do ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, de que o Brasil trabalha para que a desvalorização do real não seja permanente ‘‘é óbvia’’. ‘‘Quem é que quer a desvalorização da sua própria moeda?’’, questionou FHC, segundo seu porta-voz. O presidente brasileiro disse ainda que trabalha para que o real recupere seu valor porque há um ‘‘overshooting’’ ou sobredesvalorização, que normalmente acompanha crises cambiais.
Segundo LamaziSre, FHC não pretende comentar as medidas internas tomadas pela Argentina, mas que ‘‘proximamente’’ o Itamaraty irá se pronunciar novamente sobre a questão da mudança tarifária naquele país, que está prejudicando o Brasil e o Mercosul.

mockup