A renegociação das dívidas do setor rural para débitos acima de R$ 200 mil acirra as diferenças entre pequenos e grandes produtores. O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep), Antônio Zarantonello, criticou as condições vantajosas dadas aos grandes produtores. Já o diretor executivo da Ocepar, José Roberto Ricken, disse que o maior mérito do programa é o prazo longo, que dá um fôlego para o produtor se estruturar. Ele destaca que as taxas de juros não são tão baratas assim e não vai ser fácil compatibilizar o baixo rendimento do setor agrícola com as taxas juros, se permanecerem altas como estão.
Conforme a renegociação aprovada pelo Conselho Monetário Nacional, os produtores com dívidas acima de R$ 200 mil, que não foram enquadradas no programa de securitização, podem ter seus débitos alongados por 20 anos, pagando juros corrigidos pelo IGPM mais uma taxa de juros que varia de 8% a 10% ao ano.
Vício antigo Para Zarantonello, é preciso esclarecer à população que os grandes devedores já criaram uma cultura de ‘‘empurrar com a barriga seus débitos até serem privilegiados com uma renegociação que passa bem longe de outros setores da economia’’. Isto é, os grandes produtores criam uma referência de que dívida nesse país, pode ser rolada e não paga. Ele afirma que essa cultura é criada graças ao poder e a força política que os grandes produtores têm no Congresso Nacional.
Segundo ele, esse é o tipo de apoio que beneficia uma parcela da Agricultura, mas envolve o setor como um todo, levando a uma interpretação errada por outros setores da economia.
Zarantonello ressaltou que os grandes produtores produzem soja, café, açúcar, pecuária, produtos para exportação, cujos preços estão em alta no mercado externo. Portanto eles teriam condições de arcar com seus débitos, criticou.
Os produtores com dívidas inferiores a R$ 200.000 tiveram os débitos securitizados no prazo de 7 anos, com 2 anos de carência e juros de 3% ao ano. No Paraná, a medida atingiu cerca de 24.000 produtores com dívidas que somam quase R$ 900 milhões. A primeira parcela da dívida venceu em Outubro de 1997 e 90% foi paga, segundo levantamento da superintendência do Banco do Brasil, no Paraná. O restante, uma parte foi renegociada e outra parte não se manifestou, segundo o diretor de crédito rural do BB, Bruno Schauff.
Para Zarantonello não se pode enquadrar as dívidas inferiores a R$ 200.000,00 na categoria de mini e pequeno produtor. Segundo ele, quem deve acima de R$ 50.000,00 já pode ser classificado como médio produtor. Porque o pequeno produtor não tem acesso a financiamentos bancários com valores tão altos.
Ocepar:juros altos Já o diretor executivo da Ocepar tem interpretação bem diferente sobre as condições da renegociação. Segundo ele, o médio e grande produtor, com dívidas acima de R$ 200 mil, terá que empenhar boa parcela de sua produção para manter o pagamento. Isso porque os juros impostos de IGPM mais 8% (a taxa mínima) não é tão barata assim. Atualmente a taxa acumula um índice de 14% ao ano, que está acima da rentabilidade do setor que no máximo atinge 6% ao ano.
E essa taxa positiva refere-se apenas aos setores com melhor desempenho nos últimos anos como soja, café, cana-de-açúcar. Já outros setores como algodão e leite, estão dando prejuízo. Portanto, qualquer taxa prefixada é cara, afirmou Ricken.
O setor está apostando que as condições econômicas do país vão melhorar, que os juros vão cair e aí sim os produtores terão melhores condições de pagamento, ressaltou.
Segundo a Ocepar, são poucos os grandes produtores que se enquadram na renegociação da dívida. Ricken estima que no Paraná, no máximo 10% dos 50.000 produtores que poderão ter suas dívidas renegociadas, poderão ser enquadrados. A maioria dos devedores está concentrada na região do Cerrado e no Rio Grande do Sul.

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