Londres- A ''festa do consumidor'' no Brasil ainda não vai acabar. Há espaço, no curto e médio prazos, para um aumento do crédito e do consumo financiado devido ao fortalecimento das taxas de emprego e dos salários. Mas, no longo prazo, caso a economia brasileira sofra um desaquecimento, os consumidores poderão enfrentar dificuldades.
Essa é a conclusão de uma pesquisa feita pelo banco Morgan Stanley em outubro e novembro do ano passado junto a 750 consumidores em cinco capitais brasileiras, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. O objetivo foi verificar se o consumidor brasileiro está endividado acima de um nível considerado seguro para que os compromissos sejam honrados.
Segundo o Morgan Stanley, os empréstimos aos consumidores no sistema bancário brasileiro registraram em novembro de 2006 um crescimento anualizado de 30%. Isso representava um endividamento per capita de quase R$ 1 mil, se tomada como base toda a população brasileira. Além disso, o crédito ao consumidor tem crescido via financiamentos num ritmo agressivo, por varejistas e instituições financeiras.
Esse aumento no crédito fez com que as vendas no varejo, medidas pelo IBGE registrassem um crescimento anual de 7,7% em novembro passado. ''Após um cuidadoso exame dos resultados da pesquisa, estamos construtivos com a perspectiva do consumo no Brasil'', afirmaram Lore Serra e Tatiana Feldman, analistas do banco norte-americano.
Serra e Feldman, no entanto, alertam que no longo prazo, o comportamento dos consumidores sinaliza que a situação é potencialmente mais frágil caso ocorra um desaquecimento na economia brasileira ou dificuldades financeiras pessoais.
O levantamento mostra que, no geral, o crédito no Brasil é amplamente disponível entre os consumidores das classes A, B e C. Apenas 26% dos pesquisados não estavam endividados. Esse nível é comparável ao constatado nos Estados Unidos, mas muito inferior ao do México, onde 65% da população não têm dívidas.
Em contraste com países ricos, a população de maior poder aquisitivo carrega uma carga de endividamento menor, diante dos elevados juros mensais de cerca de 4%. Enquanto 35% dos consumidores da classe A não têm dívidas, apenas 23% das classes B e C não tinham nenhuma espécie de financiamento.
A forma mais comum de dívida entre os pesquisados é através de cartões de crédito (39%). Já a metade dos consumidores da classe C deve em cartões de lojas e supermercados. As dívidas contraídas através de bancos continuam escassas, afetando apenas 28% dos consumidores.
Segundo Serra e Feldman, a maioria dos consumidores está conseguindo administrar suas dívidas. Uma maior parcela concentra-se no tamanho dos pagamentos mensais do que no valor total do endividamento.
Entre os consumidores endividados, apenas 40% se disseram ''confortáveis'' com o nível de seus endividamentos enquanto quase a metade disse o contrário. O nível de desconforto é maior entre as classes de menor renda. Mas apenas 12% dos pesquisados com dívidas afirmaram estar enfrentando sérias dificuldades para lidar com essa situação enquanto 25% sinalizaram que estão inclinados a contrair mais dívidas.

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