Feijão ganha 30 milhões de consumidores
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segunda-feira, 01 de setembro de 1997
Oswaldo Petrin 
Dorico da SilvaOtimismoMenezes: tropicalização da agricultura e mercado externo para o feijão industrializado O feijão está ganhando um mercado de 30 milhões de consumidores, como efeito da estabilidade da economia. E o preço aumenta agora em outubro. Não há relação entre aumento do consumo e de preços, mas as duas notícias foram dadas ontem por especialistas no assunto. O atraso no plantio e colheita da safra de feijão das águas no Sul, principalmente no Paraná, provocará alta no preço de feijão em outubro. A previsão é do empresário do setor de sementes, Ricardo de Castro Merola, de Santa Helena, Goiás. Ele falou ontem de manhã no primeiro dia do Ciclo de Palestras sobre algodão, feijão, milho e soja, promovido pela Fapeagro - Fundação de Apoio à Pesquisa e ao Desenvolvimento do Agronegócio. O preço deve passar de R$ 50,00/saca, o que não será novidade - ressalvou - pois nos últimos 10 dias houve variação de R$ 22,00 para R$ 25,00.
Outro conferencista que previu alta no preço, a curto prazo, e aumento do mercado de feijão a médio e longo prazos, foi José Roberto de Menezes, da empresa Samambaia, grupo paulista que produz feijão irrigado nos cerrados de Minas Gerais, Goiás e Bahia. Ambos abordaram assuntos técnicos, mas acabaram comentando a situação e tendência do mercado para o alimento que, segundo estudos, deve experimentar um ciclo de expansão, com aumento no consumo.
Industrializado Menezes acha que o Brasil tem que se preparar para ocupar espaço num mercado internacional em crescimento. Mas para ser competitivo tem que produzir em escala e avançar na agroindustrialização, agregando valores no precozido e no tutu de feijão, por exemplo, como já vêm fazendo algumas empresas paulistas e paranaenses. Ele citou o caso do Rango, da Maggi, de São Paulo, enquanto Marela citou uma indústria de Ponta Grossa.
Dorico da SilvaEm altaRicardo Merola: alta no preço do feijão em outubro e mercado interno em expansãoVai longe o tempo em que o feijão era considerado cultura de subsistência, ou de pobre, como se usava chamar no comércio. Não pode ser considerado de subsistência um produto cujo preço já chegou a 100 dólares a saca, afirma o especialista, Ricardo de Castro Merola. E Menezes observa que é comum o feijão ter uma variação de R$ 20,00 a R$ 50,00/saca, enquanto o milho, outro produto importante para o abastecimento, varia de R$ 5,00 a, no máximo R$ 7,00.
Com relação à industrialização do feijão, Menezes acha que não se concebe que o produto continue sendo consumido na forma convencional. E Merola acha que a sociedade moderna, exigindo cada vez mais praticidade na cozinha, se encarregará de impor este salto para a industrialização ou pré-elaborado.
Agronegócio forte No Brasil, o feijão movimenta R$ 2 bilhões por ano, com a colheita de 4 milhões de toneladas, para um consumo do mesmo tamanho. Mas, ao contrário do que ocorreu nos últimos 14 anos, o mercado interno está em ascensão. Ricardo de Castro Merola prevê o ingresso de mais 30 milhões de pessoas no rol dos consumidores. A estabilidade econômica está proporcionando oportunidade para pessoas que só consumiam feijão uma vez por semana ou menos, segundo Merola. Menezes concorda com o incremento no consumo interno mas lembra que há espaço também no mercado externo.
Em termos mundiais, os maiores consumidores e produtores pela ordem são: Índia, com produção e consumo em torno de 4,5 milhões de toneladas; Brasil, 4 milhões de toneladas; China, 2,7 milhões de toneladas; Estados Unidos, 1,4 milhão de toneladas; México, 1,2 milhão de toneladas.
Produção de escala A produtividade média brasileira é de 800 kg/ha, considerada baixa. Com uso de tecnologia, a produtividade média do cerrado está em 2,4 mil kg/ha. Mas é possível aumentar, segundo Menezes, pois há um longo caminho para emprego de tecnologia. E há muito por fazer em ganhos por área e qualidade. As áreas de produção da empresa Samambaia têm uma média relativamente alta: 6 mil kg/ha/ano em duas safras. Fora das médias, a Samambaia já conseguiu produtividades isoladas de até 9 mil kg/ha.
Argentina já descobriu o potencial de mercado e está aumentando assustadoramente a produção, conforme dados apresentados pelo pesquisador Antonio Lollato, do Iapar, mas ele acha que isto não preocupa muito no momento, embora a Argentina tenha a seu favor a produtividade e o baixo custo de produção, com uso de tecnologia. Para Ricardo Merola, o produto argentino só representa concorrência no âmbito do feijão preto. O feijão preto representa 10% do mercado. Outros tipos de feijão participam com 10% da oferta e 80% do mercado é ocupado pelo carioquinha.
Olho no mundo Para Manezes, o Brasil tem condições de exportar feijão ganhando um bom espaço no mercado internacional. Ele disse que em termos de agricultura mundial, especialmente no feijão, está havendo o que chamou de tropicalização da produção. A agricultura mundial deixa o eixo dos países frios ou temperados e avança para o equador. Ele acha que o mercado externo tem um potencial de crescimento para passar dos atuais 20 milhões de t para até 100 milhões de toneladas. Esta expansão do consumo é uma tendência mundial porque o feijão é uma proteína saborosa e de baixo preço. Quem não consome é por falta de hábito e não por rejeição. Com a agroindustrialização o feijão pode experimentar um avanço equivalente ao da soja nos últimos 30 anos.
Um grupo de técnicos e agroindustriais norte-americano esteve recentemente no Brasil para ver o potencial de produção de feijão, informou Menezes. O grupo é um dos segmentos internacionais interessados em importar e processar feijão do Brasil, em grande escala.
Menezes é o ganhador, pelo Estado de São Paulo, do Prêmio Agricultura Real, instituído este ano pelo Ministério da Agricultura, na categoria científica.
Menezes acaba de ganhar o prêmio Agricultura Real, pelo Estado de São Paulo, instituído pelo Ministério da Agricultura.
O Ciclo de Palestras foi instalado ontem com a presença do presidente da Sociedade Rural do Paraná, Luiz Roberto Neme; do presidente do Iapar, Florindo Dalberto; do secretário municipal da Agricultura, Samir Curi, representantes de cooperativas, Embrapa, universidades e Emater, cerealistas e produtores.


