Paulo Sotero
Agência Estado
Como previsto, o Federal Reserve (Fed) aumentou ontem os juros do mercado interbancário em 0,25 ponto percentual - de 4,75% para 5% -, numa medida preventiva contra o ressurgimento de pressões inflacionárias na economia dos Estados Unidos, que está em seu oitavo ano de expansão e continua a crescer a taxas anuais de mais de 4% com a menor taxa de desemprego em três décadas (4,2%). O Fed não tocou na taxa de redesconto, que cobra aos bancos por seu fundos e está em 4,5%. Mas o banco central americano compensou psicologicamente a decisão de subir os juros - a primeira em mais de dois anos e três meses - com uma boa notícia que o mercado não esperava: abandonou o viés de alta da política monetária que adotara há seis semanas em favor de uma posição neutra.
Convencidos de que o Fed não voltará a mexer nos juros no futuro previsível, os investidores, que já haviam encaixado a correção de 0,25 ponto dos juros, voltaram em peso aos mercados de ações e de bônus e Wall Street teve um de seus melhores dias do ano. O índice Dow Jones da Bolsa de Nova York saltou 155.45 pontos e fechou em 10.970,80. Os mercados de papéis da América Latina também tiveram alta.
A Comissão Federal do Mercado Aberto, o órgão do Fed que dita a política monetária, justificou sua decisão num breve comunicado. Depois de lembrar que reduzira os juros no último outono americano para responder aos efeitos da crise financeira internacional no mercado financeiro dos EUA, a comissão explicou que ‘‘muito da tensão financeira dissipou-se desde então, as economias estrangeiras firmaram-se e a americana seguiu adiante num ritmo animado’’, dispensando a ajuda de um relaxamento monetário. ‘‘Os mercados de mão-de-obra continuaram apertados em trimestres recentes, mas o fortalecimento dos ganhos de produtividade contiveram as pressões inflacionárias’’. Por essa razão, o Fed voltou a uma posição neutra na política monetária.
‘‘Mesmo assim, a comissão reconhece que, no dinâmico ambiente (econômico) atual, deve estar especialmente alerta para o surgimento ou o potencial de surgimento de forças inflacionárias que poderiam minar o crescimento’’. Embora não haja indícios de pressões inflacionárias na economia americana, apesar da situação de virtual pleno emprego que tende a elevar os salários, os formuladores da política monetária no Fed temem que outros fatores que contribuíram para conter a inflação nos EUA no ano passado, tais como preços baixos de petróleo e a queda demanda global provocada pela crise financeira iniciada na Ásia em 1997, estejam começando a reverter.
Nesse cenário, a surpreendente decisão do Fed de abandonar o viés de alta e recolocar a política monetária em posição neutra foi interpretada como uma solução de compromisso com o mercado e os políticos em Washington, que não vêem razão para novos aumentos de juros diante da falta de sinais visíveis de inflação na nova e altamente produtiva economia ‘‘high tech’’ do país.
‘‘O Fed finalmente reconheceu que não há nenhuma razão para embarcar numa série de apertos da política monetária’’, disse Scott Grannis, economista-chefe da Western Asset Management. ‘‘Esse aumento dos juros foi puramente uma compra de um seguro (contra o ressurgimento da inflação)’’.
Pouco antes de o Fed oficializar sua decisão, o Conference Board, uma firma de análise e previsão econômica de Nova York, anunciara um aumento de 0,3% em maio dos Principais Indicadores Econômicos, que detecta as tendências da economia nos próximos três a seis meses e havia recuado 0,1% em abril. ‘‘Os indicadores mostram a elasticidade e a robustez desta expansão, que está em aprumada para se tornar a mais longa da história no início do ano 2000’’, disse Michael Boldin, diretor de pesquisa do Conference Board.
O mais duradouro período de crescimento da economia dos EUA estendeu-se por 106 meses, de fevereiro de 1962 a dezembro de 1969. A atual fase de crescimento, que já é a mais longa em tempos de paz, suplantará o recorde absoluto se continuar até feveiro do ano que vem.
Agora, há poucas dúvidas entre os economistas de que isso acontecerá. O pior cenário que se prevê é o aumento dos juros decidido ontem empurrem a economia americana para uma aterrissagem suave, das taxas historicamente altas de crescimento para um patamar um pouco mais baixo, mas com a enorme vantagem de prolongar a expansão num nível mais sustentável e evitar uma recessão.
‘‘Não se espera que a ação de hoje (ontem) do Fed tenha qualquer impacto adverso significativo na indústria do varejo ou nos gastos dos conumidores’’, afirmou a presidente da Federação Nacional do Comércio Varejista, Tracy Mullin.

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