Fechamento de frigoríficos nos EUA gera abate de animais por asfixia, afogamento e tiro


MARINA DIAS
MARINA DIAS

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Uma nova polêmica tomou frigoríficos americanos durante a pandemia do coronavírus: milhões de animais de criação estão sendo abatidos com métodos cruéis, que vão de asfixia a tiro, mesmo com a demanda sem precedentes por alimentos no país.

Desde o início da crise, dezenas de plantas foram fechadas nos EUA por causa da contaminação por Covid-19 e, sem processar porcos e aves, empresas têm abatido os animais não utilizados.



Segundo o jornal The Guardian, estima-se que cerca de 10 milhões de galinhas foram abatidas desde o início da pandemia, a maioria delas sufocada por uma espécie de espuma à base de água, semelhante à usada no combate a incêndios, método considerado desumano por especialistas.

A indústria de suínos, por sua vez, alertou que mais de 10 milhões de porcos podem ser abatidos até setembro pelo mesmo motivo. As técnicas nesse caso incluem uso de gases tóxicos, overdose de analgésico, tiro, trauma por força, e até a variação de temperatura para que, com o calor, os animais comam menos.

De acordo com a Associação Americana de Medicina Veterinária (AVMA, na sigla em inglês), em "circunstâncias restritas" podem ser utilizadas técnicas que combinem o desligamento da ventilação no ambiente de criação dos porcos com adição de CO2 para, dessa forma, os animais sufocarem.

Os métodos cruéis são mais um grave problema que coloca os frigoríficos dos EUA sob holofotes.

A queda de produção diminuiu o abastecimento em termos de carne bovina, suína e aves no país, e preocupou empresas e o governo americano.

Já houve caso em que uma das gigantes de alimentos, a JBS USA, por exemplo, foi processada pela família de um funcionário morto por Covid-19. A acusação é de que a empresa foi negligente ao não fornecer as medidas de segurança e higiene necessárias e manter a planta em funcionamento apesar da pandemia.

Preocupado com os danos econômicos da pandemia em sua campanha à reeleição, o presidente Donald Trump decidiu intervir no setor e assinou no fim do mês passado uma ordem executiva para que os frigoríficos se mantenham abertos.

Baseado no Ato de Defesa da Produção, criado em 1950 para garantir a produção nacional, Trump quer evitar problemas de abastecimento mas empresas dizem que a medida não tem adiantado.

De acordo com relatório do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA (CDC, na sigla em inglês), 115 instalações de processamento de carnes e aves reportaram diagnósticos de Covid-19 entre seus quadros, em 19 dos 50 estados americanos.

Dos 130 mil trabalhadores desses locais, 4.913 tiveram casos foram confirmados, e de 30 a 40 plantas foram fechadas.

Com cerca de 60 fábricas nos EUA, a JBS USA afirma que fechou temporariamente ao menos quatro delas para "contribuir com a saúde pública", mas todas já voltaram às atividades, algumas com capacidade reduzida.

Além da JBS USA, outras gigantes da carne fecharam algumas de suas plantas este ano e alegam queda de produção de até 50% nos EUA. Entre elas, estão a Tyson Foods e a Smithfield Foods.

Os fechamentos, mesmo que temporários, fizeram com que a produção de carne bovina caísse 25%, enquanto a de porco despencasse 40%. A Tyson, por exemplo, estima que sua produção de suínos caiu 50% desde o início da pandemia.

Como é mais fácil manter bovinos nas fazendas, explicam especialistas, essa criação ainda não foi atingida pela necessidade de abate para descarte. Porcos e aves, por sua vez, lideram a lista.

Analistas estimam que depois do abate das 10 milhões de galinhas até agora, o pico desses animais pode ter passado. No caso dos porcos, o Conselho Nacional de Produtores de Carne Suína (NPPC, na sigla em inglês) estima que pouco mais de 10 milhões de suínos precisarão ser sacrificados até setembro. Até agora, cerca de 2 milhões devem ter sido abatidos, projetam.

Caso voltem à produção com ao menos 85% de sua capacidade até o fim de maio, as projeções de abate para os suínos podem diminuir significativamente.

Nesta terça-feira (19), Trump participou de um evento com agricultores e fazendeiros justamente sobre abastecimento e disse que os EUA importam muito gado de países com quem têm acordos comerciais. "Acho que deveríamos encerrar esses acordos. Temos muito gado no país", afirmou o presidente.

O porta-voz do NPPC, Jim Monroe, disse ao Guardian que, na semana que terminou em 15 de maio, menos de 25% da capacidade geral de abate estava ociosa e a situação estava melhorando. Monroe acrescentou que a "trágica necessidade de sacrificar animais é prevenir o sofrimento deles."



A ordem de Trump dá às empresas cobertura legal e proteção contra ações de responsabilização caso trabalhadores peguem o vírus por terem que se manter em serviço.

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