O mercado financeiro vive hoje a obsessão das pesquisas eleitorais. Assim que uma sondagem é registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), começam a surgir todos os tipos de boato sobre o desempenho dos candidatos, provocando oscilações significativas nos preços do dólar, das ações e dos títulos da dívida externa.
Mais do que qualquer outro fator, é esse tipo de informação certa ou errada que tem movimentado o mercado. Isso ficou claríssimo na última sexta-feira, um dia em que o Dow Jones subiu 3,58% e o Nasdaq, 4,94%, mas os rumores depois confirmados de que Ciro Gomes (PPS) teria ultrapassado José Serra (PSDB) na pesquisa do Vox Populi fizeram o dólar fechar em alta de 0,91%, cotado a R$ 2,882, e a bolsa recuar 1,24%.
Na última quinta-feira, no entanto, os boatos davam conta de que Lula teria 36% das intenções de voto, Serra, 23%, e Ciro, 19%. Em menos de 24 horas, o quadro se inverteu, e o medo e um tanto de especulação tomou conta do mercado.
A diretora do Ibope Opinião, a empresa de pesquisas políticas e de opinião pública do grupo Ibope, Márcia Cavallari, diz que não tem mais sossego nos dias em que está prevista a divulgação de pesquisas para presidente. ''Eu não faço mais nada a não ser desmentir boatos o dia todo''.
Segundo Márcia, são dezenas de telefonemas, de instituições financeiras e órgãos da mídia. Esta é, para ela, a principal diferença entre esta eleição presidencial e as anteriores, no que se refere aos institutos de opinião pública. Nunca houve tanta ansiedade e tantos boatos rondando a divulgação das pesquisas.
E são esses rumores que ajudam a alimentar a roda da especulação. O mercado de títulos da dívida, por exemplo, é um dos mais suscetíveis a movimentos especulativos. Em geral, as apostas mais agressivas com esses papéis são de hedge funds, tesourarias de bancos que operam no Brasil (nacionais ou estrangeiros) e fundos dedicados a mercados emergentes.
O economista encarregado de acompanhar o cenário político em um grande banco estrangeiro no Brasil diz que mensagens de e-mail com os mais recentes boatos eleitorais têm circulado à toda velocidade. Em 31 de maio, um C-Bond valia 75% do valor de face. Se o especulador vendeu o título nesse dia e o readquiriu uma semana depois, a 68,875%, conseguiu comprá-lo a um preço 8,2% mais baixo.
O gestor de fundos de investimento no exterior da Sul América Investimentos, Luís Eduardo Pinho, reconhece que, hoje, a variável-chave para os movimentos nesse mercado é realmente o noticiário sobre as eleições. Especular nesse mercado, no entanto, está um pouco mais difícil depois que o Banco Central (BC) começou a recomprar títulos da dívida. A medida reduziu a liquidez desse mercado, e tornou a especulação mais arriscada.
Pinho diz que, hoje, montar uma posição de US$ 100 milhões pode fazer um ''estrago'' nos preços, porque o volume de negócios caiu bastante. Hoje, esse mercado movimenta cerca de US$ 900 milhões por dia; há algumas semanas, o giro atingia US$ 1,5 bilhão. Pinho ressalta, no entanto, que não é só a especulação que provoca a queda dos preços. Há muita gente que se machucou com a crise da Argentina e mesmo com os recentes tombos dos papéis brasileiros que decide reduzir a exposição ao risco Brasil não para especular, mas para se proteger.
A demanda de pesquisas pelo mercado financeiro está aumentando. Em termos do ritmo de atividade do Ibope Opinião, responsável por 14% do faturamento do grupo Ibope (o grosso vem da empresa da pesquisa de audiência de TV), Márcia diz que não há uma grande diferença em relação à eleição de 1998. Mas ela acrescenta que, desta vez, ''há um pouco mais de clientes do sistema financeiro''.
Estes tipo de cliente surgiu pela primeira vez, de acordo com a executiva, nas eleições de 1994. Hoje, as empresas e bancos dividem com os partidos políticos e órgãos de imprensa o papel dos principais compradores de pesquisas de intenção de voto para presidente.
De acordo com a legislação em vigor, uma pesquisa sobre as eleições têm de ser registrada no Tribunal Eleitoral caso venha a ser divulgada. A divulgação só pode ser feita depois de um prazo mínimo de cinco dias do registro. É sempre neste fatídico quinto dia que os boatos surgem com mais força, observa Márcia.
Por uma peculiaridade da lei, as pesquisas registradas não têm necessariamente de ser divulgadas. Na semana passada, a não-divulgação de uma pesquisa encomendada ao Ibope pela corretora Ágora Sênior, do Rio, causou grande nervosismo no mercado financeiro, com muita especulação com dólares e títulos brasileiros, e rumores abundantes. Informações desencontradas sobre o que revelaria a sondagem provocaram um sobe-e-desce frenético dos preços.

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