Brasília - Tal como num livro de Agatha Christie, qualquer um pode ser o culpado. O surgimento de um foco da febre aftosa em Mato Grosso do Sul, que poderá causar prejuízos de até US$ 1 bilhão às exportações, abriu uma temporada de acusações em que todos são suspeitos: do governo aos produtores, dos paraguaios a um vírus mutante.
O presidente Lula afirmou que o principal responsável pela vacinação é o dono do rebanho, provocando irritação entre os produtores. A causa do ressurgimento da aftosa, porém, ainda está sendo investigada e da solução desse mistério depende a elaboração da estratégia do Brasil para derrubar os embargos internacionais ao produto.
''Não temos a menor dúvida de que o problema foi a falta de recursos'', afirmou o deputado Eduardo Paes (PSDB-RJ). Seu partido proporá à Comissão de Agricultura da Câmara que convoque os ministros da Agricultura, Roberto Rodrigues, e da Fazenda, Antonio Palocci, a dar explicações. Rodrigues vinha se queixando da dificuldade em fazer Palocci liberar os recursos prometidos à sua Pasta.
Um olhar mais cuidadoso nos números, porém, mostra que a explicação é mais complicada. O ministro da Fazenda é acusado de segurar os gastos do governo além do necessário, levando vários programas ao limite. Isso lhe confere o status de mordomo do suspense, sempre o primeiro suspeito.
Mas, no caso da Agricultura, havia a verba liberada de R$ 91 milhões para programas de defesa sanitária, dos quais apenas R$ 50 milhões foram empenhados até hoje. Os R$ 41 milhões restantes estão parados, segundo o próprio Rodrigues. Mesmo não tendo gasto todo o dinheiro, o ministro pediu mais verbas. Agora, quer mais R$ 78 milhões.
Ele disse que o dinheiro não foi usado porque é verba que deveria bancar programas propostos pelos Estados. Mas os Estados não apresentaram propostas - como é o caso de Mato Grosso do Sul. Só recentemente, às vésperas da crise, apresentou seu plano. Se aprovado, deverá receber R$ 3,5 milhões.
O Estado se eximiu de culpa pelo ressurgimento da doença. O governador José Orcírio dos Santos, o Zeca do PT, esteve no Ministério da Agricultura na quinta-feira, dia 13, e preferiu lançar suspeitas sobre o gado paraguaio. ''Me estranha muito que nos últimos 6 ou 7 anos os focos de aftosa em Mato Grosso do Sul tenham surgido em regiões próximas do Paraguai'', afirmou.
O diretor da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro), João Cavallero, acrescentou que em dois focos surgidos no Paraguai, em 2000 e 2001, foi achada a variedade tipo O da doença, a mesma encontrada em Eldorado. ''É muita coincidência'', disse. A acusação de Zeca do PT irritou o governo paraguaio.
A reportagem mostrou que os rebanhos circulam sem o menor controle na região da fronteira. Para piorar, os gastos com controle sanitário na fronteira caíram drasticamente. Segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), os gastos federais caíram de R$ 60,9 milhões em 2000 para R$ 2,2 milhões de janeiro a outubro deste ano.
Não foram só os paraguaios os acusados de propagar o vírus da aftosa. O senador Osmar Dias (PDT-PR), ex-secretário de Agricultura de seu Estado, afirmou esta semana que a culpa é dos bolivianos.
Dias lembrou que o Senado aprovou este ano uma medida provisória para doar vacinas àquele país, dentro de uma estratégia de fortalecer o controle além da fronteira. ''Mas lá a vacinação não é obrigatória e eles não vacinaram nada'', afirmou o senador. Ele acrescentou que tampouco no Paraguai há controle sobre a saúde dos animais.

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