Fatores que agravam a crise
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de setembro de 2001
Milton Mira Assumpção Filho 
Executivos, empresários, economistas, jornalistas especializados, intelectuais, políticos e analistas, em momentos de crise econômica como o atual, demonstram imensa boa vontade, atendendo às dezenas e dezenas de solicitações de entrevistas da mídia, para explicar os problemas econômicos e orientar a população. Nem sempre, contudo, conseguem externar com pedagógica clareza explicações acessíveis à maioria das pessoas. Além disso, em sua legítima cruzada pelo crescimento sustentado, pela queda dos juros, pela geração de empregos, por menos impostos e uma legislação econômica menos anacrônica, os empresários, muitas vezes, carregam na tinta em suas entrevistas sobre as crises.
Essas questões têm uma consequência muito negativa: transformam as dificuldades conjunturais em espectros indestrutíveis, alienígenas impassíveis às medidas de reação do governo, da sociedade, das empresas e dos indivíduos. A crise ganha status de vírus letal desconhecido, contra o qual não há remédio e cura. É claro que a disseminação dessas imagens no chamado inconsciente coletivo gera reação em cadeia, inibindo o consumo e, num efeito em cascata, as vendas, os serviços, a indústria. Agrava-se o efeito real que as dificuldades deveriam gerar no universo da economia.
Reflexões como estas são oportunas no momento em que o Brasil vive mais um momento difícil, incluindo a crise energética. É fundamental que se aproveite bem a situação para buscar, de forma corajosa, objetiva e focada nos verdadeiros problemas, a solução real dos problemas da economia. A questão mais séria é que a análise que se faz, além de incompreensível para grande parte dos brasileiros, fica muito circunscrita ao câmbio, ao fluxo internacional de capitais e ao aumento dos riscos de se investir num país emergente com dificuldades similares às da Argentina ou outra vítima de plantão do mundo globalizado.
Ficam à margem da análise outras questões fundamentais, cuja solução é fator condicionante à construção de um país mais próspero e desenvolvido. Dissociar do conjunto de problemas da economia, as facetas da distribuição de renda, os problemas sociais, a falta de educação, saúde e condições adequadas de vida é um grave obstáculo ao encaminhamento de soluções efetivas e abrangentes. Os próprios técnicos do governo, inclusive movidos por boas intenções de acalmar o mercado, não conseguem transmitir clareza à sociedade e acabam contribuindo para multiplicar as incertezas. Outro fator de agravamento das dificuldades econômicas vem do cenário político, em duas vertentes. A primeira, na base de sustentação do governo no Congresso Nacional, cada vez mais dividida e frágil; a segunda, nos partidos de oposição. Na verdade, os dois problemas convergem para a mesma origem: o desencadear precoce do processo de sucessão presidencial, despertando ambições e interesses inoportunos na presente conjuntura.
Para vencer o inimigo é preciso identificá-lo em suas reais dimensões, suas forças e suas fraquezas. Diagnósticos parciais suscitam ações paliativas; confusão de conceitos e falta de clareza tornam o bicho mais feio do que de fato é. Sem consciência - e desmotivada pela percepção de que muitas vezes os interesses políticos sobrepõem-se aos da Nação -, a sociedade não consegue engajar-se num projeto exequível de redenção nacional.
- MILTON MIRA ASSUMPÇÃO FILHO, editor, é presidente da Pearson Education do Brasil e da Makron Books


