Fantasma da inflação está de volta
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de dezembro de 2002
Agência Estado 
São Paulo A onda de aumentos de preços espalha-se de forma acelerada por todos os setores da economia, numa dinâmica que já cria temores de uma volta da ciranda inflacionária. Levantamento da consultoria Rosenberg & Associados mostra que o movimento de alta de preços já contagia quase a totalidade dos itens do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe).
Dos 523 itens pesquisados pelo instituto, nada menos do que 81,6% apresentaram variação positiva na terceira quadrissemana de novembro. Normalmente, em tempos de inflação sob controle, não muito mais do que metade dos preços pesquisados sobe, enquanto o restante apresenta queda ou estabilidade. Em junho, quando a inflação em São Paulo ficou em 0,31%, por exemplo, 55,25% dos itens pesquisados pela Fipe haviam registrado alta.
''Este movimento é muito preocupante, porque o passo seguinte é a reindexação de salários'', diz o consultor José Augusto Arantes Savasini, sócio-diretor da Rosenberg. Savasini vê ainda um outro problema criado pela aceleração dos preços. Segundo ele, a taxa real de juros (descontada a inflação) está muito baixa e, dependendo do índice que se toma como referência, até negativa.
Para ele, isso pode criar expectativas de que os aumentos de preços serão maiores do que a remuneração das aplicações, estimulando o consumo nos próximos meses. Ou seja, quem tem dinheiro aplicado, diante de uma remuneração irrisória, pode sacar esses recursos para comprar bens de consumo duráveis, como um carro zero quilômetro, por exemplo, comenta o consultor.
Para conter o atual processo inflacionário, ele diz que o Banco Central terá de aumentar a taxa básica de juros (Selic) no próximo mês, dos atuais 22% para, ao menos, 25% ao ano. ''Estamos caminhando num fio da navalha: ou se faz alguma coisa muito forte agora, ou vamos nos arrepender mais tarde, porque essa bolha inflacionária pode virar um turbilhão e o remédio será muito mais amargo.''
Para o coordenador do IPC-Fipe, Heron do Carmo, o quadro não é tão grave. Segundo ele, as pressões são passageiras e deverão ficar restritas ao período de transição até a posse do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
''O que estamos vendo são aumentos preventivos motivados pela expectativa de mudança de governo'', diz Heron. ''Quem acha que tem custo represado vai tentar repassar agora, porque é muito mais fácil aumentar preços no fim de um governo do que no início de outro.''
O economista avalia que este movimento deve fazer com que a inflação neste fim de ano seja mais alta que a prevista. No entanto, ele acredita que a taxa deverá começar a voltar a uma normalidade já no início do próximo ano. ''Se os preços continuarem subindo, ninguém vai comprar mais nada, porque os salários vêm perdendo o poder aquisitivo há muito tempo.''
Na sua avaliação, não há necessidade de aumentar juros neste momento. Para ele, se os preços continuarem subindo em 2003, o futuro governo deve convocar os empresário e usar sua força de pressão para coordenar as expectativas.


