Famílias abrem mão das empregadas mensalistas
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segunda-feira, 20 de maio de 2013
Carolina Avansini <br> Reportagem Local 
Lavar e passar roupas, cozinhar, faxinar, arrumar. Tarefas até então delegadas para empregadas domésticas em muitos lares da classe média brasileira passam a fazer cada vez mais parte da rotina das famílias. A aprovação do Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que garante direitos similares aos de outras categorias profissionais aos trabalhadores domésticos - e que a princípio onera os custos dos empregadores - suscitou a discussão sobre a viabilidade de manter empregadas mensalistas realizando os serviços da casa. O aumento dos salários e a aparente falta de profissionais dispostas a trabalharem nessa função, entretanto, indicam uma tendência das famílias abrirem mão das mensalistas, substituindo-as por diaristas e assumindo parte dos serviços.
Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que, em 2012, mais de 40 mil pessoas deixaram de exercer a função de trabalhador doméstico no Brasil, provavelmente seduzidas por ofertas de trabalho em outros setores. Outra constatação é que a reposição de mão de obra é insuficiente, visto que trabalhadoras mais jovens não se interessam mais por esse mercado. Em 1995, as jovens de até 29 anos correspondiam a 51% do total de ocupadas em emprego doméstico. Em 2009, este valor caiu para 27%. Já a parcela daquelas que possuem mais de 50 anos saltou de 10% para 19% no mesmo período.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informam que a renda real dos trabalhadores domésticos cresceu 53,2% de 2003 a 2012, o que também pode tornar essas profissionais inviáveis para muitas famílias. Diante desse cenário, o Ipea identificou que as diaristas estão se configurando cada vez mais como alternativa à empregada doméstica mensalista. Os dados mais recentes apontam que, no Brasil, de cada 100 trabalhadoras domésticas, 30 trabalham em mais de um domicílio e 70 trabalham em apenas um domicílio. Quinze anos atrás, estes valores eram de 18 e 82, respectivamente.
''O crescimento das diaristas tem se revelado uma das mudanças mais importantes no perfil do trabalho doméstico em anos recentes. Entre 1995 e 2002, houve pouca alteração no perfil do trabalho doméstico quando se observa o número de trabalhadoras atuando em um domicílio ou em mais de um domicílio. Praticamente toda a mudança observada no período se dá entre os anos de 2002 e 2009, indicando que esta é uma mudança típica dos anos 2000 e que tem se dado de forma sustentada'', afirma a pesquisadora Natália de Oliveira Fontoura, do Ipea.
Para a socióloga Silvana Mariano, doutora em Sociologia e professora do departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina (UEL), a redução no número de pessoas trabalhando em serviços domésticos no Brasil pode significar a diminuição da desigualdade social. Já as discussões em torno da PEC das domésticas são consideradas positivas pela especialista, visto que ''jogam luz'' no lugar que o trabalho doméstico ocupa na sociedade. ''Trata-se de um trabalho como qualquer outro e tem que ser tratado dessa forma'', diz.
Ela alerta que, por herança dos tempos da escravidão, o trabalho doméstico ainda é considerado ''degradante'' por muitos brasileiros, o que torna ''natural'' ter outras pessoas para realizá-lo. ''Uma cultura onde as pessoas têm mais autonomia com relação ao autocuidado é sempre mais democrática'', avalia.
A tendência, segundo a socióloga, é que as jovens encontrem cada vez mais oportunidades de trabalho em outros setores, fugindo do ''destino'' de se tornarem empregadas domésticas. Ressalva, porém, que com ou sem empregada, continuam sendo as mulheres as responsáveis pela maior parte dos serviços com a casa e com os filhos, o que gera cada vez mais sobrecarga sobre a população feminina.


