Eldorado ''Vamos arregaçar as mangas e começar tudo de novo.'' Assim reagiu a fazendeira Emília Turquino Vezozzo, de 63 anos, depois de presenciar, ontem, o abate do último dos 582 bovinos da sua fazenda, interditada após o surgimento de um foco de aftosa, em Eldorado. As máquinas enterraram nas valas sanitárias abertas no pasto 40 anos de dedicação à pecuária brasileira, segundo ela. ''Espero que o governo não me faça desistir.''
Quase toda a família de Emília vive do campo. A atividade foi iniciada pelo pai dela e está, agora, na quarta geração. Seus irmãos, Renato, Luís, Diva, José Moacir e Hélio Turquino, têm fazendas próximas. ''Minha fazenda sempre foi modelo'', orgulha-se a fazendeira. ''Fizemos um bom trabalho de genética com a raça limousin em cruzamentos com o nelore. Muitas das vacas abatidas eram puras.''
Na área de 720 hectares, os pastos são reformados, não tem erosão nem pastagem degradada. A propriedade é administrada pelos filhos Luiz Henrique, economista, e Mariza, arquiteta. Outro filho, Marcelo, é empresário do setor de carnes. ''Esse é o negócio da família'', afirmou. Por isso, ela não admite que se questione os cuidados tomados com o gado. ''Entregamos ao Iagro não só as notas das vacinas, como os frascos vazios. Tiramos fotos também da marca da vacinação na paleta dos animais.'' Não há também trânsito de animais na área. O sistema de criação é fechado e apenas os bezerros são vendidos. Por isso, o surgimento da aftosa pegou toda a família de surpresa, segundo Emília.
Sem perspectiva de voltar a criar gado bovino, por causa da interdição, Emília pretende redirecionar a propriedade para a agricultura. ''Vou plantar soja, mas dependo da permissão do ministério.'' Ela foi recebida ontem pelo ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que visitava a região infectada, mas não obteve garantia da indenização pelos abates, nem da rápida liberação da área para outras atividades.
Emília cobrou a investigação sobre a origem do surto, pois tem certeza que não houve falha da fazenda. ''Fizemos nossa parte, pois vacinamos o gado e, ao constatar os sintomas, informamos o Iagro. Não queremos ser tratados como bandidos.''

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