Nos aviários dos produtores integrados à empresa concordatária Dagranja, as aves mais jovens estão morrendo de fome por falta de ração. E as aves adultas estão praticando o canibalismo por absoluta falta de proteínas na ração. No município de Mandirituba, há 50 quilômetros de Curitiba, a empresa reduziu à 30% a entrega de ração para os 65 aviários instalados no município. De cada três entregas previstas, apenas uma vem sendo realizada. E assim mesmo, caiu bastante a qualidade da ração.
O resultado são centenas de pintos mortos dentro dos aviários porque não há altenativa de alimentação, para desespero do produtor Estefano Ivankio Neto. Ele é integrado da Dagranja há 18 anos e nunca passou por situação semelhante. A familia de Pedro, incluindo ele e mais dois filhos, possuem cinco aviários de 100 metros cada um com 62.000 aves. Eles estão perdendo em média, 1000 animais por dia, que não aguentam a falta de comida.
Para o presidente da Associação dos Avicultores Integrados à Dagranja, Nelson Pedro Cândido, a situação é grave e atinge os 790 produtores dos 34 municípios da região Sul do Paraná, onde a empresa mantém produtores integrados. Segundo ele, nos aviários com aves adultas a situação é de despero. Quando um animal pica o outro e ele começa a sangrar, é praticamente devorado vivo pelos demais animais. ‘‘ É uma pena até para descrever’’, conta.
Estefano tentou colocar abóbora madura para as aves, mas sem resultado. O pior é que ele está sem receber da empresa há seis meses. Está levando um calote de R$ 35 mil, conforme seus cálculos. O produtor disse que está para entregar o quarto lote e quer saber quando poderá receber para saldar contas que têm para manter o aviário como os pagamentos de luz, gás e querosene.
O produtor está revoltado com a situação. Segundo ele, os produtores não poderiam ser arrolados como fornecedores na concordata da Dagranja porque são prestadores de serviço e são trabalhadores. ‘‘ Nós recebemos os pintinhos, damos comida, cuidamos, não temos dinheiro para levar as contas para frente’’, lamenta-se.
Estefano quer saber o que a Dagranja está fazendo, que não paga os fornecedores, reduziu a ração e não paga os produtores integrados. ‘‘ Mas parar de abater a empresa não parou, que eu sei’’, pergunta.
Com a redução do volume de ração, os lotes ficam comprometidos. As aves não atingem o peso ideal para consumo no mercado interno, que varia de 2 a 2,5 quilos. As aves estão sendo entregues e abatidas com 1,5 quilo, e por isso não são bem aceitas no mercado.
O produtor Pedro Ferreira da Rocha, 71 anos, integrado à Dagranja há 14 anos já perdeu a esperança em receber os atrasados. Disse que era o último lote que estavam mantendo sem receber e se a empresa não pagar pelo menos o último não terá como manter o aviário. Ele disse que o drama social em Mandirituba é grande porque os produtores não têm outra atividade, a não ser a integração. Ele disse que o vizinho, também integrado e totalmente descapitalizado, chegou a perder a filha, com 22 anos, por falta de dinheiro para pagar médico e exames para a menina que ficou doente do pulmão. A situação foi tão dramática, que no dia do velório da filha, a Copel chegou para cortar a luz por falta de pagamento e os funcionários voltaram para trás, porque não tiveram coragem de executar a determinação da empresa.

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