No próximo ano a taxa de desemprego poderá alcançar 12% e este índice é o reflexo da trágica mudança que está havendo nas relações de trabalho. Não há desemprego, o que está acabando é o emprego mesmo, ou a relação empregatícia tal como a conhecemos. Muitos tinham carteira assinada e viraram sócios minoritários do patrão, mas continuam engrossando a estatística do desemprego. Outros estão atuando da mesma forma, terceirizados.
No Brasil, hoje, segundo o Ministério do Trabalho, 57% dos que trabalham não têm vínculo empregatício, ou seja, mais da metade da população economicamente ativa. Hoje, para ser competitiva, a empresa precisa ter um quadro com segundo grau completo, gente que pensa, gente que tem bom humor. A margem de lucro é proporcional ao grau de instrução da equipe.
O emprego mudou. O telegrafista virou teletipista, depois virou digitador e agora que digitador acabou, ele vai fazer o quê? O torneiro foi substituído pelo robô e assim as coisas vão mudando numa rapidez incontrolável. Segundo a ONU, o uso de robôs em todo o mundo já substituiu dois milhões de pessoas em postos de trabalho. Só em 1997, na Europa, entraram em funcionamento 85 mil novos robôs.
Estive visitando a Alcatel na Espanha e pude observar que esta empresa saiu de sete mil funcionários para quinhentos, e a sua produção real aumentou 7 vezes. É a máquina e a especialização do ser humano, que agora não é mais mão-de-obra. Agora é talento, é cérebro-de-obra. E assim, vão sendo ameaçados em seus empregos até profissionais de intermediação, como o vendedor, o corretor, o office-boy, o despachante, etc.. A secretária deixou de ser babá do chefe e hoje cuida do marketing pessoal dele. Caso contrário ela não sobrevive na profissão, que mudou, está mudando e ainda irá mudar radicalmente.
O trabalhador do futuro tem que demonstrar iniciativa e capacidade de correr riscos. Dos 20 mil funcionários do Bill Gates, o dono da Microsoft, o homem mais rico do mundo, mais de mil têm 1 milhão de dólares de fortuna pessoal obtidos dentro da empresa através da participação de resultados. O ser humano, em plena era da máquina, agora é o docinho disputado pelos empresários, porque ele é o talento, o verdadeiro bem de capital. No Brasil ainda existe muito trabalho a ser feito, principalmente na área de serviços. Nós sempre temos colocado em nossas palestras que os governantes falam muito em trazer indústrias. Isso por si só não dá mais emprego. A não ser que venham muitos tributos nesta escalada, que financiarão empregos na área de serviços. Precisamos de gente para pintar meio-fio, podar árvore, limpar esgoto, varrer rua. O país ainda precisa ser desbravado, precisa ser construído e sob esta ótica, não deveria haver um desempregado sequer. Hoje quem dá emprego é cultura, educação, centros de lazer, shoppings. Vivemos mais a era do sonho. O cara que laça o boi na fazenda ganha salário mínimo, enquanto o que laça o boi no rodeio ganha uma F1000. Quanto vale a arroba do boi? O Chitãozinho & Xororó cobram 250 bois para cantar 1 hora e 15 minutos em Barretos. Quem será que ganha mais, o pecuarista ou o cantor? São os novos paradigmas que estão no ar. A marca vale mais do que a empresa. A Coca-Cola vale US$ 49,5 bilhões e no entanto o seu patrimônio líquido vale menos de US$ 2 bilhões. E assim também é com Marlboro, Benetton e tantas outras que estão na ponta da língua de qualquer criança. E é esta a diferença que faz os países ricos dos países pobres. Os países poderosos tem algo em comum, a educação básica resolvida, investimento maciço em ciência e tecnologia e respeito à cultura. É esse espírito que faz a diferença. A mulher não compra o batom, mas a esperança de receber o elogio da colega. É preciso mudar para não morrer. Por aqui, a igreja fez a sua opção pelos pobres, o estado também fez a sua opção pelos pobres e os pobres fizeram a sua opção pelos ricos. É preciso rever os paradigmas. Não podemos mais trabalhar como no ano passado, no mês passado, como ontem. Precisamos trabalhar em times, em equipes. Precisamos passar a bola ao outro, mesmo que não gostemos dele, porque o objetivo é ganharmos juntos. Jogar em time é unir os contrários. Toda essa cultura nova demonstra que a cada dia que passa teremos menos emprego e mais trabalho. Este migrou e mudou a sua forma de ser. E é esta a diferença que faz com que um artista suba ao palco ardendo em febre, mas vai honrar o seu compromisso e o empregado comum, com uma simples gripe manda avisar que não vai. É esta a sutil diferença do Brasil com os Estados Unidos. Aqui nós temos pouco mais de 100 universidades, algumas capengando, enquanto lá existem 3 mil universidades fortes. Salve-se quem puder. Salve-se quem quiser.
- CILCLÉR REGINA é consultor de programas de motivação e qualidade e autor de livros em Maringá

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