A falta do reconhecimento internacional do Paraná como área livre de febre aftosa reduz em 50% o valor da carne bovina produzida no Estado no mercado internacional. Este é apenas um exemplo do quanto a falta de qualidade e sanidade compromete a competitividade e a sobrevivência dos produtores brasileiros em um mercado globalizado. Preocupado com esta perda de espaço, o Conselho Estadual de Sanidade Agropecuária (Conesa), presidido pelo secretário estadual de Agricultura, Antonio Poloni, promoveu ontem, em Londrina e Guarapuava, o Seminário sobre o Programa de Qualidade e Competitividade da Agropecuária. Participaram do evento em Londrina, a vice-governadora, Emília Belinati; o secretário da Agricultura, Antonio Poloni; o presidente da Faep, Ágide Meneguette; o delegado do Ministério da Agricultura no Paraná, Mário Bezerra Guimarães, o prefeito Antonio Belinati, os presidentes do Sindicato Rural de Londrina, Edison Mazei Ponti, e Sociedade Rural do Paraná, Francisco Galli.
Segundo o pesquisador da Embrapa e consultor do Ministério da Agricultura, Décio Luiz Gazzoni, o seminário teve como objetivo estimular nas lideranças locais a criação de conselhos municipais e intermunicipais. Gazzoni afirmou que estes conselhos irão funcionar como foro para debater os problemas locais, e repassá-los ao Conesa, que terá função de fiscalizador, poder de polícia e legislador. ‘‘Mas os membros do conselhos municipais também podem contribuir na fiscalização, alertando o Conesa para os problemas sanitários identificados no dia-a-dia’’, observou.
Gazzoni, que assessora o secretário Nacional de Defesa Agropecuária, Ênio Marques, na elaboração do Programa Nacional de Qualidade e Competitividade, afirmou que o envolvimento dos produtores e da iniciativa privada no problema de qualidade e sanidade dos produtos agropecuários é irreversível. ‘‘O governo já sinaliza que não tem mais condições de arcar sozinho com esta responsabilidade. O governo não é onipresente, nem onipotente’’, comentou.
Segundo o consultor, o governo federal já trabalha com a expectativa de que a liberação do comércio mundial, com quedas de barreiras e de alíquotas, faz parte de um futuro bem próximo. ‘‘Para sobreviver neste cenário, é necessário ter competitividade, com custos baixos e qualidade’’, afirmou. Gazzoni observou que além destes fatores, o mercado internacional também leva em conta os fatores ambientais da produção. ‘‘Grupos organizados no mundo todo estão de olho na forma que os alimentos são produzidos. O boicote é a punição para quem produzir provocando danos ambientais’’, comentou.
Gazzoni disse, por exemplo, que a falta de reconhecimento do Paraná como zona livre de febre aftosa compromete as exportações e os ganhos dos produtores. Segundo ele, a tonelada da carne bovina do Paraná é exportada por US$ 1,5 mil, enquanto a carne de uma área reconhecida como livre da doença varia entre US$ 3 mil e US$ 3,5 mil. ‘‘A conquista do reconhecimento de zona livre de aftosa abre espaço na Cota Hilton, que paga até US$ 8 mil/tonelada de cortes de carne bovina nobre’’, disse.
Segundo o técnico, uma das prioridades do governo, dentro do Programa Nacional de Qualidade e Competitividade, é a educação sanitária. Gazzoni disse que o governo reconhece que os produtores rurais ainda encontram dificuldades de aplicar conceitos de sanidade que chegam até ele.
‘‘Há um excesso de informação chegando ao homem do campo e uma falta de concatenamento entre os órgãos que produzem e repassam as informações’’, comentou. Gazzoni observou que o programa contempla uma mudança de foco neste aspecto, fazendo com que os recursos hoje dirigidos às campanhas de combate a doenças e na fiscalização, sejam investidos na educação sanitária.
Gazzoni afirmou ainda que a Reforma Administrativa que o governo federal está promovendo prevê a criação da Agência Brasileira de Defesa Agropecuária, que será o órgão fiscalizador do setor agropecuário. ‘‘A proposta de criação da agência será encaminhada ao Congresso para ser apreciada junto com a Reforma Administrativa’’, comentou.

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