Falta de preparo explica as falências
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de junho de 1997
Eliane Azevedo, Agência Estado 
Rio de Janeiro
Você decidiu dar um basta a patrão, horário, cartão de ponto - chega de escravidão! Com o dinheiro das economias de anos, vai realizar seu sonho dourado: ser dono do próprio negócio e só ter que dar satisfação de sua vida a si mesmo. Se é nisso que você vem pensando cada vez mais insistentemente, um aviso: ter sucesso no mundo da pequena empresa é tarefa de Maciste. Não é à toa que o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), instituição privada que existe em todo o País, apresenta uma estatística macabra - 80% dos pequenos negócios fecham as portas no primeiro ano. Mais: apenas 5% sobrevivem por cinco anos.
Boa parte da responsabilidade por números tão dramáticos reside no fato de as pessoas, apesar do enorme desejo, simplesmente não estarem preparadas para montar e gerenciar uma empresa. Em geral, o pequeno empresário iniciante não se preocupa se existe mercado para seu produto ou serviço, aponta o coordenador da rede de balcões do Sebrae do Rio de Janeiro, Armando Gomes Filho. Ele acha que é o melhor e, por isso, tem que dar certo.
Como nada é assim tão simples, o primeiro mandamento para quem quer abrir seu negócio é tomar todo o tipo de informação sobre ele, aprender palavras-chaves como capital de giro e fluxo de caixa - e, principalmente, qual a real possibilidade de retorno. Está mentindo quem fala de retorno em seis meses, aponta Gomes. Na melhor das hipóteses, o investimento se paga em um ano.
Daí o pecado mortal cometido pelo microempresário: queimar todas as reservas na montagem do empreendimento. É fundamental manter uma margem de segurança para enfrentar as dificuldades que certamente surgirão no primeiro ano, aponta o consultor Alain Guetta, especializado em franchising. Deve-se evitar cair no mercado financeiro, até porque os bancos exigem garantias pesadas para um pequeno empresário, aconselha Gomes.
A carioca Leila Rumchinski, 32 anos, que o diga. Com duas amigas, ela abriu em julho do ano passado uma sorveteria a quilo no Méier, um subúrbio do Rio. Além da impropriedade de abrir um negócio típico de verão no inverno, as moças, recém-demitidas de uma companhia de seguros, investiram todo o fundo de garantia para montar a loja, num total de R$ 40 mil. Resultado: como o negócio dá prejuízo, Leila não suportou mais. Não conseguiu financiamento no mercado e acabou tendo de vender sua parte. Acabou meu dinheiro, simplifica ela. Vou agora procurar um emprego, com salário certinho no fim do mês, plano de saúde e tíquetes-refeição.
Ex-sócia de Leila, Margarete Pinheiro da Silva, 34 anos, decidiu dar uma virada no perfil do negócio. Montada inadequadamente na última loja de uma galeria - e a gente lá sabia que era um ponto ruim?, arrepende-se ela -, a sorveteria, que trabalha com produtos artesanais, está sendo aos poucos transformada em delicatessen. Não sei se é o caminho certo, mas isso torna a loja diferente das demais da região, diz.
Mais escolada, Margarete tocou no ponto que o consultores apontam como crucial: o diferencial - o toque mágico que vai destacar seu negócio do mar de concorrentes.
Ganhar menos do que quando assalariado é uma das surpresas frequentes reservadas ao pequeno empresário neófito. Outra: prepare-se para, provavelmente, trabalhar muito, mas muito mais do que quando tinha um patrão vociferando em seus ouvidos. Tome-se o exemplo de Rosa Maria de Oliveira Seabra, 47 anos, dona de três lojas franqueadas da cadeia Mr. Pizza na zona sul do Rio. Nos fins de semana, vou dormir às quatro da manhã; durante a semana, às duas, enumera. Acordo sempre às 7 horas, para levar minha filha à escola, durmo um pouquinho e no máximo às 11 horas estou correndo as lojas.
O caso de Rosa mostra que as franquias, vistas como o novo eldorado para quem quer proclamar a independência econômica, também exigem prudência e caldo de galinha. Ela levou um ano e meio apenas procurando o ponto ideal e investiu consideráveis R$ 200 mil na primeira loja. A franquia, por já ser algo estabelecido, oferece talvez menos da metade do risco de um negócio independente, avalia Guetta. Mas mesmo o melhor franqueador do mundo não pode garantir que seu franqueado vai se dar bem. Para Rosa, porém, a Mr. Pizza serviu como porto seguro: Não teria tido coragem de abrir um negócio sozinha e fui muito bem-orientada pela empresa.
Apesar dos riscos, a experiência de construir algo de seu é quase irresistível. No ano passado, segundo dados do Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo, foram abertos 482.692 novos negócios no Brasil. Existem cerca de 4,5 milhões de micro, pequenas e médias empresas no País - 99,3% do total -, respondendo por 59% dos empregos, 48% da produção e 42% dos salários pagos. Portanto, você não está sozinho - e mesmo quem ainda não conseguiu ver o arco-íris não deixou de acreditar que, na próxima curva, vai encontrar seu pote de ouro. Gosto muito mais de estar na loja do que no meu antigo emprego e conheço gente nova todos os dias, garante Margarete, da sorveteria. Não vou desistir.


