Falta de dinheiro incentiva a permuta
Cláudia Lopes
De Londrina
A troca de serviços entre profissionais de áreas diferentes em época de renda arrochada é uma das alternativas encontradas pelos trabalhadores para satisfazer desejos e necessidades que parecem distantes. A dificuldade para se pagar produtos e serviços em dinheiro vivo ressuscita, nos períodos de recessão, o antigo escambo prática milenar pela qual os nossos antepassados obtinham mercadorias para subsistência.
Em Londrina, o troca-troca está se disseminando. Há quem pague tratamento dentário com aulas de ginástica, troque reformas de sofás por pintura de residências e até instalação de grades em janelas pela confecção de uniformes, como ocorreu com a costureira Maria José da Silva, moradora do Conjunto Cafezal 1.
Dona Maria José contratou um serralheiro para colocar uma grade de proteção na janela, além de uma porta de ferro em sua cozinha. Com o orçamento de R$ 200 em mãos, ela resolveu propor ao dono da empresa um negócio inusitado: pagaria parte da transação confeccionando uniformes para oito funcionários.
Paguei R$ 65 em dinheiro e o resto com as costuras. Foi um bom negócio porque anda difícil arrumar serviço. Enquanto há três anos, eu tinha uma freguesia fixa de 20 pessoas que me pagavam R$ 25 para costurar por dia, hoje tenho apenas três clientes deste tipo. Além disso, as encomendas normais estão fracas e, o preço de confecção, congelado, reclama Maria José. A costureira conta que teve seu ganho mensal reduzido de oito salários mínimos para dois desde 1996.
A pintura da casa do tapeceiro Manoel Darci dos Santos estava desbotada e precisava ser refeita. Eu queria pintá-la há quatro anos mas nunca sobrava dinheiro, ele conta. Solução: Manoel trocou a reforma de dois sofás por paredes novas. A permuta foi fechada tanto com o vendedor de tintas como com o pintor. Foi ótimo porque não tive que desembolsar R$ 400. Segundo o tapeceiro, o movimento da empresa caiu 50% em relação a 98.
A dentista Gisele Palierini Meira frequentou sessões de massagens durante todo o ano passado em troca de um tratamento dentário. A massagista não tinha dinheiro para pagar, precisava do tratamento e me fez a proposta. Uni o útil ao agradável e achei que foi bom negócio para as duas, afirma.
Outra que está cuidando do corpo na base da troca de serviços é a professora de técnica vocal Rosângela Nascimento. Ela negociou aulas de canto por sessões de alongamento com uma terapeuta corporal. Este tipo de acordo não é novidade para Rosângela, que almoçou dois anos em troca de aulas de canto para o dono de um restaurante da cidade. Eu recomendo esta saída para todo mundo. Quando a gente não coloca dinheiro no negócio, a relação com a outra parte fica mais íntima e flexível. É um tipo evoluído de relação humana, sem dependência da energia monetária, filosofa.
O escambo tem sido usado algumas vezes por escolas para tentar reduzir a inadimplência, segundo o presidente do Sindicato das Escolas Particulares do Norte do Paraná, Alderi Ferraresi. Tem escola que já trocou, com os pais de alunos, tintas para pintura de paredes, execução de obras civis e equipamentos audiovisuais como retroprojetores.Profissionais de diferentes áreas driblam os saldos baixos das contas correntes trocando produtos e serviços entre si
Mario CesarMOEDA DE TROCAManoel Darci dos Santos, tapeceiro: paredes novas foram conseguidas depois do acordo fechado com o dono da casa de tintas e o pintor, sem dinheiro na transaçãoMario CesarTOMA-LÁ-DÁ-CÁMaria José da Silva, costureira: colocação de grade na janela no cômodo em que trabalha, em sua casa, saiu barato. Ela confeccionou uniformes para o fornecedor





