A escassez de água na China pode ter uma relação direta com o preço dos alimentos em todo o mundo. Lester Brown, do Worldwatch Institute, especialista internacional em população e ambiente, acredita que esse problema em um país com 1 bilhão e 300 milhões de pessoas, cuja economia cresce a uma taxa de 7%, levará fatalmente a um aumento internacional dos preços de alimentos. É preciso considerar que esse crescimento representará mais 12 milhões de chineses, este ano, e que está havendo uma crise de produção nos países que mais fornecem cereais ao mundo. ‘‘Como a escassez de água se intensifica, a China tende a ser o principal importador de alimentos, superando, inclusive o Japão’’, acrescenta Lester.
Segundo o instituto, a camada de água sob Pequim diminuiu em 2,5 metros em 1999 e 59 metros desde 1965. Isso, segundo a entidade, deveria servir de advertência aos líderes chineses. A parte setentrional do país, com dois terços das terras aráveis e apenas um quinto de sua água, seca rapidamente. É brutal a demanda de água, provocando o esvaziamento das fontes. Na região da planície, que se estende desde o norte de Shangai até o norte de Pequim e é responsável por 40% da produção de cereais do país, a camada de água está baixando a uma média de 1,5 metro por ano.
Demanda urbana Os camponeses do norte também padecem com a falta de água, porque a maior parte do líquido é desviado para as cidades e indústrias. É provável que a demanda urbana venha a ocupar um lugar de destaque, já que a população chinesa deverá crescer em 126 milhões até 2010. O Banco Mundial calcula que essa demanda aumentará de 50 a 80 bilhões de metros cúbicos, com uma alta de 60%, enquanto as necessidades industriais se elevarão de 127 para 206 bilhões de metros cúbicos, com aumento de 62%, segundo Brown. Nessa concorrência entre as cidades industriais e o campo, perdem os camponeses, que obtêm US$ 200 por uma tonelada de trigo, mas gastam 1 bilhão de metros cúbicos de água para produzi-la. O mesmo volume de água rende à indústria US$ 14 mil, setenta vezes mais.
A crescente demanda por água nas últimas décadas levou a uma constante diminuição do caudal do rio Amarelo. Em 1972, ele secou por excesso de uso e ficou 15 dias sem chegar ao mar, depois de correr ininterruptamente por milhares de anos. Nos últimos anos, esteve seco, de forma intrermitente, até 1985. A partir daí, esvazia completamente durante seis meses a cada ano e, em 1997, não chegou ao mar por 226 dias consecutivos. Este ano, também não chegou à província de Shandong, responsável por um quinto da produção de milho e de um sétimo da produção de trigo do país. ‘‘A metade da água de canais usada na província vem do rio Amarelo’’, a outra metade provem de uma camada de água que diminui 1,5 metros por ano. Quanto mais água da parte superior se desvia para cidades e indústrias menos água tem a parte inferior, o que significa que não está longe o dia em que Shandong não terá mais água para os canais’’, esclarece Brown. (IPS).

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