No meio de uma atividade que acontece mensalmente entre as crianças da educação infantil, a declaração de uma delas dá mostra de que o que é aprendido na escola pode muito bem ser colocado em prática: ''Gente, precisamos olhar bem as frutas para não comprar nada estragado'', diz naturalmente o pequeno Felipe Hideli, 6 anos. A princípio soa engraçado, mas depois de um tempinho entre a turma percebe-se que o cuidado na hora da compra é reflexo de um processo de orientações do qual fazem parte a família e a escola.
No Colégio Universitário em Londrina, as atividades relacionadas à educação financeira começam cedo, com os alunos ainda no ensino infantil e se estendem aos estudantes do ensino fundamental e médio. É a chamada pedagogia empreendedora, explica a coordenadora pedagógica do colégio, Kátia Mitsue Yano. Um projeto, segundo ela, que visa ensinar aos alunos a importância de valorizar e administrar seus próprios recursos.
''Algumas crianças começam a receber mesada desde muito cedo e é interessante que elas aprendam a cuidar desses recursos. E a escola realmente precisa prepará-la para isso'', afirma Kátia. Entre as crianças, com idade de 4 a 6 anos, explica, as atividades estão relacionadas com as etapas de ganhar, poupar, investir e compartilhar, vivenciando situações do dia a dia. Em um ''mini'' supermercado montado no próprio colégio, por exemplo, os pequenos aprendem que fazer escolhas é um processo natural da vida, inclusive com a compra de alimentos.
Todo mês, conta a pedagoga, a turma ganha uma mesada de R$ 15, fornecida pela própria escola, e discute o que vai ser feito do recurso. ''A compra de um livro para deixar em sala de aula, um mapa ou a compra de ingredientes para o preparo de uma comida durante as aulas de culinária. Cada mês o grupo define um objetivo e traça as estratégias para alcançá-lo'', explica Kátia, lembrando que, às vezes, as crianças vão até um supermercado de verdade, mas em algumas situações a escola compra alguns produtos de marcas diferentes e os coloca no mercadinho para que os alunos façam as ''compras'' ali mesmo. ''Quando a gente vai ao supermercado o dinheiro é de verdade, mas se ficamos ali na escola o dinheiro é de mentira'', informa.
Kátia revela que a professora da turma é quem organiza e orienta os alunos no processo de definir as compras. Então ela explica a importância de estabelecer o objetivo, comprar somente o necessário e realizar pesquisa de preço - porque se sobrar algum recurso, dos R$ 15, ele poderá ser aproveitado no mês seguinte. ''Nem sempre as discussões são muito harmoniosas, pois cada um sempre defende seu próprio interesse mas tudo acontece de forma saudável. E depois a professora os ajuda a chegar em um consenso'', conta a pedagoga, reforçando que por meio dessas atividades as crianças aprendem a conviver em grupo, abrir mão de seus próprios interesses, a fazer escolhas e tomar decisões.
Segundo Kátia, os pais das crianças acham a proposta interessante porque é uma forma dos filhos aprenderem na escola coisas que muitas vezes não aceitam que sejam ensinadas pelos pais. ''Eles ficam encantados porque é um trabalho diferente e que ajuda no desenvolvimento do raciocínio lógico, do espírito de liderança e do empreendedorismo'', observa. Ela acrescenta, inclusive, que o resultado desse projeto é que muitas vezes os pais dos alunos se veem em uma ''saia justa''.
''Como as crianças aprenderam algumas coisas, eles precisam ser exemplos ou acabam sendo cobrados pelos filhos a terem a postura adequada'', brinca a pedagoga. Isso acontece, exemplifica ela, na hora em que vão ao supermercado com os pais, por exemplo, e falam a eles que devem comprar o produto mais barato, fazer pesquisa, olhar bem as frutas e verduras e que precisam economizar.

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