O presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná, Ágide Meneguette, defende a aplicação de um ''choque administrativo'' para moralizar o governo federal. Ele diz que a agricultura tem motivos para comemorar o fim da CPMF, que considera uma ''carga excessiva'' para o setor. Meneguette esteve em Londrina no final de semana para participar de uma reunião com liderenças rurais e concedeu uma entrevista especial à FOLHA.

O presidente da Faep lamenta que o governo não esteja investindo o necessário custo da produção agrícola. Ele ainda condena as atuais taxas de câmbio, afirmando que com o dólar baixo ''o Brasil gera empregos no exterior''.

Meneguette afirma também que o Paraná tem condições de melhorar a produtividade e aumentar ainda mais sua área de produção e espera que o Estado seja declarado área livre de febre aftosa no próximo ano.

FOLHA - O que representa o fim da CPMF para a agricultura?
ÁGIDE MENEGUETTE - Primeiro a gente entende que o Senado Federal deu um basta na prepotência do governo, achando que tanto a Câmara dos Deputados como o Senado eram seus órgãos auxiliares. A agricultura brasileira detém 35% do Produto Interno Bruto. Se a arrecadação da CPMF seria em torno de R$ 40 bilhões, isso significa que mais de R$ 14 bilhões seriam do setor rural. Nós entendemos que isso seria uma carga excessiva. Vemos o governo contratando gente, às vezes, sem precisar. Vemos também o governo fazendo negociações, onde troca o apoio político por cargos públicos, nem sempre olhando as melhores pessoas para administrar, mas quem tem o melhor apadrinhamento político. E nós nesse País precisamos que haja um choque de administração pública porque nós temos a maior carga tributária do mundo.

E como seria esse ''choque''?
Nós precisamos, na verdade, que os recursos recolhidos pelo governo sejam melhores administrados. E para isso precisa ser um choque de administração, porque há muito desperdício. O País precisa ser mais sério. Nós não podemos admitir que o País seja administrado dessa forma. Nós somos penalizados. A sociedade que paga seus impostos, a maior carga tributária do mundo e o atendimento que nós precisamos não existe. Temos pouco recursos para a pesquisa, pouco recurso para a sanidade e combate à febre aftosa. Não temos infraestrutura. Nossos portos estão com problemas de logística. Ou seja, nós produzimos e temos dificuldades. Hoje você é até proibido de ficar doente porque o atendimento que você tem na assistência à saúde pública deixa muito a desejar considerando o volume de recursos que constitucionamente é destinado ao setor de saúde. A própria educação também deixa a desejar.

O fim da CPFM deve servir de lição para o governo?
Nós precisamos que o governo pare e reflita sobre esta decisão do Senado de não prorrogar a CPMF, porque o país precisa caminhar para o seu desenvolvimento e isto não acontece apenas aumentando a carga tributária, aumentando os gastos. Nós precisamos de uma melhoria também de gestão, que começa desde os municípios, os governos do estado, governo federal, para que nós possamos realmente crescer e termos um País que desejamos para nós, para nossos filhos e para nossos netos.

Mas o governo já está falando em um substituto da CPMF para o ano que vem...
Veja bem. Isso aí precisa ser avaliado. Toda a sociedade brasileira tem que ficar atenta a isso como ficou atenta na questão da CPMF. Essa discussão não ficou apenas a nível de governo, mas a nível de toda a sociedade, de todas as camadas sociais do Brasil. Daqui para frente, nós cidadãos temos que participar ativamente dessas discussões porque não podemos ter decisões impostas goela abaixo para a sociedade pagar e não tem o atendimento que precisa.

O problema, então, não é necessariamente pagar a CPMF e sim a falta de resultados?

Nós temos a maior carga tributária do mundo, e nós temos o melhor atendimento do mundo? Que o fim da CPMF seja um marco histórico no País para que a sociedade cobre de nossos representantes, cobre de nossos governos, a melhor aplicação dos recursos pagos na forma de tributos.


Como a baixa cotação do dólar está afetando a agricultura atualmente?

Os preços das commodities, do mercado internacional, estão bons. Mas na hora que você converte com esse dólar de R$ 1,70, realmente há um achatamento significativo na renda do produtor rural. Os insumos subiram até 30% e em alguns casos os alimentos subiram mais de 100% em dólar e o nosso produtor não teve 100% de reajuste. O setor rural e outros segmentos da agroindústria vão ter dificuldade de estabilizar, porque com o dólar baixo todo mundo vai estar importando, e ao invés da gente gerar emprego no Brasil, nós vamos gerar empregos no exterior. O Brasil vai se tornar um grande exportador de empregos.

O senhor falou em dificuldades. Quê dificuldades seriam essas?
Se o seu custo de produção fica mais caro que o valor que você vende seu produto, isto é uma grande dificuldade. E se vem as importações, com dólar baixo, é evidente que elas vão concorrer deslealmente com o Brasil. Só para se ter uma idéia, a carga tributária da China é em torno de 20%, mas o câmbio chinês tem um variação também de quase 20%. Então o efeito de câmbio e carga tributária na China é zero. No Brasil temos um câmbio apreciado em 15% com uma carga tributária de 40%. Como nós vamos poder competir no mercado internacional ou mesmo no mercado interno, se o Brasil reconheceu a China como um país de livre mercado?

E como os problemas de logística estão comprometendo a produção nacional?
Comprometem porque o custo de produção aumenta violentamente. Fica menos renda para o produtor e isso significa menos dinheiro circulando na economia do País. A questão de infra-estrutura, de logística, é um problema sério no Brasil. Você vê que os Estados Unidos têm as hidrovias e as ferrovias que cortam todo território onde se produz e aqui no Brasil nós não temos rodovias com preço competitivo. Nós saímos, na verdade, de um monópolio estatal para o monópolio privado. Vemos as nossas rodovias praticamente esburacadas, intransitáveis, apesar de todos os impostos que se paga justamente serem investidos em estradas. O Brasil precisa olhar urgentemente a questão da logística e infraestrutura porque se não nós vamos estar realmente produzindo e não tendo como escoar e perdendo a nossa competitividade no mundo.


Quais são as perspectivas para setor agrícola no Brasil em 2008?
Nós esperamos ter uma boa safra em 2008, se São Pedro ajudar. O mercado internacional está com aumento das commodities no mundo inteiro, porque a demanda também aumentou e consequentemente os preços não deverão cair. A única coisa que nos preocupa realmente para o ano que vem é a questão da política cambial porque, mesmo que cotações lá fora estejam numa posição boa, na hora que converte para Real o produtor acaba perdendo. A expectativa que temos é que o ano que vem seja um ano bom, que Deus nos ajude e que o governo nos atrapalhe menos.

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