Exportar e produzir é desafio brasileiro
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sábado, 07 de agosto de 2010
Cláudia Antunes<br>Folhapress 
Brasília - O presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDES), Luciano Coutinho, criticou os que ''depreciam'' as exportações brasileiras de commodities e disse que é falsa a dicotomia entre ser produtor de matérias-primas e de bens industriais.
''Nós não podemos cair num falso dilema. Temos que ter a capacidade de fazer as duas coisas. É o desafio brasileiro'', disse à Folha de S.Paulo. Ele afirmou que está sim preocupado com o recuo das manufaturas nas vendas brasileiras - no primeiro semestre deste ano, o saldo comercial industrial foi o pior desde 1997. Mas observou que não é ''trivial'' exportar commodities de qualidade em grande escala.
''Requer competência empresarial em logística, competência mercadológica, estruturas de financiamento, capacidade de mobilizar sistemas de fornecedores e muitas vezes desenvolvimento tecnológico. Isso não é percebido claramente.'' Especialista em desenvolvimento industrial, Coutinho disse falar como professor e não como dirigente do banco estatal ao receber o prêmio de ''personalidade acadêmica-pública'' de 2010 do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).
Ele se concentrou nos desafios representados pela China. Disse que a demanda de Pequim por matérias-primas ''inverte'' a teoria do argentino Raúl Prebisch (1901-1986), segundo a qual produtores de commodities estavam condenados à periferia do sistema internacional.
Nesse aspecto, a ascensão chinesa é uma ''oportunidade'' para o Brasil. Por outro lado, afirmou, as ambições tecnológicas chinesas são um ''tremendo desafio'' à indústria nacional.
''Se não tivermos sabedoria e capacidade de fortalecer nosso sistema empresarial para desenvolver competitividade industrial e tecnológica avançada, a China poderá representar um fator dramático de inibição do potencial do Brasil.''
Coutinho alertou que os aumentos salariais em curso na China não reduzirão sua competitividade. ''Os diferenciais absolutos de custo em todos os itens importantes são tão dramáticos que não vejo nos próximos anos que o gap vá se fechar de maneira que nos permita negligenciar a preocupação com o desenvolvimento industrial-tecnológico.''
Na China, citou, os investimentos privados em inovação chegam a 1,44% do PIB, contra 0,50% do Brasil. ''O setor privado brasileiro precisa no mínimo triplicar sua capacidade de investimento em inovação para chegar ao que China já chegou hoje.''
Coutinho disse que as críticas ao empréstimos do BNDES para consolidação e internacionalização de empresas são baseadas em ''desinformação'' e que o movimento foi em grande parte ''espontâneo, fruto do amadurecimento da capacidade competitiva das empresas brasileiras''.


