Os exportadores brasileiros serão mais afetados pela crise argentina do que os próprios exportadores argentinos, segundo Mario Mugnaini, diretor-executivo para assuntos de Mercosul da Fiesp. Ele avalia que, num primeiro momento, haverá recuo nas vendas brasileiras de bens de consumo para a Argentina, como bebidas, alimentos, têxteis e calçados, por conta da queda na renda da população. Numa segunda fase, devem cair as encomendas de bens de capital, de informática e de telecomunicações – nesse caso, influenciadas também pela resolução argentina 258, que alterou a TEC em julho.
Enquanto o consumo cai na Argentina, o Brasil importa do país vizinho sobretudo commodities, como trigo e petróleo, cuja compra independe do câmbio ou da situação do mercado interno brasileiro. ‘‘Sempre vamos precisar de trigo e petróleo, por isso nosso comércio será mais afetado do que o deles’’, afirma o empresário.
Tradicionalmente, a balança comercial bilateral é positiva para a Argentina. No ano passado, o superávit foi de US$ 550 milhões. Ainda assim, a Argentina absorve cerca de 30% das vendas externas de manufaturados do Brasil, puxadas por automóveis e terminais de celular. Ao mesmo tempo, a Argentina é o segundo maior mercado para os calçados e os produtos têxteis brasileiros, por exemplo.
Só no ano passado, foram US$ 123 milhões em sapatos e mais de US$ 200 milhões em têxteis. Esse dois setores também importam da Argentina couro, no primeiro caso, e algodão, no segundo, produtos essenciais para a produção e para as exportações. Isso significa que, mesmo que as exportações recuem, as importações brasileiras devem se manter, impactando mais o resultado brasileiro do que o argentino.
Segunda Heitor Klein, diretor da Abicalçados (Associação Brasileira da Indústria de Calçados), as exportações para a Argentina cresceram 34% de janeiro a maio, volume inferior à média anual de 40% de crescimento registrada nos últimos anos. Ele admite que pode haver redução das compras pela Argentina por conta da queda na demanda, mas avalia que o produto importado do Brasil é, muitas vezes, mais em conta do que o fabricado internamente na Argentina, o que pode ser uma grande vantagem. ‘‘Podemos até registrar um crescimento , mas só poderemos traçar um quadro preciso depois de agosto, período em que acontece boa parte das encomendas’’, afirma.

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