São Paulo A maioria dos economistas não foi capaz de prever o pífio crescimento do PIB deste ano. Mas a maior zebra de 2003 é mesmo o espantoso aumento das exportações e do saldo comercial. No início do ano, grande parte dos economistas projetava um saldo de US$ 17 bilhões, com crescimento de 30% em relação a 2002. E hoje, com o ano praticamente encerrado, sabe-se que as exportações serão de US$ 72 bilhões a US$ 78 bilhões e o saldo, de US$ 22 bilhões a US$ 25 bilhões, quase o dobro do resultado de 2002. Mais: contrariando todos os arautos do declínio do superávit, o dólar mais baixo nem prejudicou as exportações e nem puxou as importações como se esperava. O resultado impressionante se deve a uma combinação de fatores: alta dos preços das commodities, aumento da venda dos manufaturados, recuperação da Argentina, crescimento da China e também desaceleração do mercado interno.
Agora, a pergunta é uma só: o saldo deste ano é sustentável e poderá ser repetido no ano que vem? ''Grande parte dos fatores que impulsionaram as exportações em 2003 tende a se manter no ano que vem, mas as importações vão crescer, reduzindo o saldo comercial'', diz Júlio Callegari, economista da Tendências. Em bom português, o superávit comercial de 2004 deve ficar abaixo do obtido neste ano. Mas deve continuar robusto, sem risco para o ajuste das contas externas. Na previsão de economistas, algo entre US$ 16 bilhões e US$ 22 bilhões.
É provável que a alta nos preços das commodities, um dos principais combustíveis das exportações deste ano, se sustente. De acordo com os indicadores da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), o volume de exportações dos produtos básicos, como soja e minério de ferro, cresceu 15%, com uma alta de 7,8% nos preços. Já o volume de semimanufaturados como celulose e açúcar cresceu 10,5% no período, mas os preços subiram 12%.
A demanda internacional também deve continuar melhorando, o que favorece principalmente a exportação de manufaturados: o 'espetáculo do crescimento' nos Estados Unidos está em pleno andamento e até a Europa e Japão dão sinais de reanimação. A Argentina dá mostras de recuperação as exportações brasileiras para lá cresceram 94%, e devem ficar em cerca de US$ 4,5 bilhões. E a China assumiu a segunda posição entre os maiores destinos de exportações brasileiras, com crescimento de 81,1% até novembro. ''A China é um fator-chave o Brasil não apenas aumentou suas exportações para lá, mas ganhou também participação de mercado no país asiático'', diz Marcelo Carvalho, economista-chefe da Itaú Corretora.
Assim como a China, outros novos mercados, como Europa Oriental (vendas cresceram 29%) e Oriente Médio (19,4%), foram determinantes em 2003 e devem se consolidar no próximo ano.
Mas a mudança deve vir, mesmo, é nas importações. Com a economia desaquecida, as importações continuaram muito baixas e devem encerrar 2003 com crescimento de apenas 3%. E assim mesmo em cima de uma redução de 15% no ano passado. Portanto, em 2004, é natural que, sustentadas pela recuperação da demanda doméstica, as importações cresçam. ''Mas isso é muito bom, porque precisamos importar bens de capital e insumos para exportações'', diz Ricardo Markwald, diretor-geral da Funcex. ''Um saldo de US$ 20 bilhões com corrente de comércio (soma de exportações e importações) de US$ 120 bilhões é insustentável.'' Segundo ele, está na hora de substituir um superávit recessivo, dependente da queda de importações, por um superávit mais saudável, resultado de aumento das exportações e também das importações.

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