Agência Estado
Do Rio de Janeiro
A desvalorização cambial tornou mais atraente a exportação de produtos que, no mercado doméstico, começam a ter seus preços reajustados. Um dos casos mais expressivos é o do açúcar, que registrou crescimento de 52,1% no volume exportado no primeiro semestre do ano, segundo dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Em setembro, o preço do produto no atacado, que vinha se mantendo estável, deu um salto de 13,1% no mercado interno, contribuindo para pressionar a inflação.
O aumento não está ligado a questões sazonais e nem foi considerado normal pelos técnicos da Fundação Getúlio Vargas. ‘‘A preferência pela exportação, por causa do ganho maior, pode vir a puxar os preços internos, elevando a inflação, mas ainda não sabemos se isto está de fato ocorrendo’’, diz o chefe do Centro de Estudos de Preços da FGV, Paulo Sidney Cota. A carne bovina e o frango são dois outros produtos que tiveram uma alta taxa de crescimento no volume exportado e, coincidentemente, alta de preços interna.
O item abate de animais teve aumento de 28,7% em quantidade de vendas externas. No acumulado do ano até setembro, a carne bovina já registra aumento de 19,8% nos preços dos atacadistas, que estão sendo repassados para os consumidores. Neste caso, porém, os especialistas têm uma justifica: a estiagem prolongada prejudicou a pecuária e reduziu a oferta do produto.
‘‘Ainda não há evidências claras de que o aumento das exportações esteja ocorrendo às custas de prejuízos ao mercado doméstico, até porque o consumo interno está retraído’’, explica o economista da Funcex Fernando Ribeiro. ‘‘Mas há possibilidades de que isto ocorra realmente, como na década passada, quando as vantagens maiores de exportação acarretaram falta de oferta doméstica’’, acrescenta.
O presidente da Associação de Supermercados do Rio de Janeiro (Asserj), Aylton Fornari, diz que ainda não estão ocorrendo casos de redução de oferta decorrentes de um aumento das vendas internacionais, mas admite que os preços estão sendo empurrados pela comparação de ganho das exportações. ‘‘Não só o açúcar, mas o óleo de soja, o milho e outros gêneros estão acompanhando os preços conseguidos pelos produtores em suas vendas para outros mercados’’, diz Fornari. Ele lembra que nos últimos 60 dias o frango teve alta de 10% a 12% no atacado e mais da metade desse aumento já foi repassado ao consumidor, que terá de arcar com novos reajustes.
‘‘Há um problema difícil de ser resolvido’’, comenta Paulo Sidney Cota. ‘‘O governo precisa incentivar as exportações para fechar as contas públicas, mas este aquecimento pode vir a causar aumento na inflação do ano.’’

mockup