Exportações de veículos serão afetadas com moratória da Argentina
Risco é que queda nas vendas para o país vizinho desde início da crise local em 2018 prejudique indústria paranaense
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Risco é que queda nas vendas para o país vizinho desde início da crise local em 2018 prejudique indústria paranaense
Fabio Galiotto - Grupo Folha 
O anúncio do governo Mauricio Macri de que a Argentina terá de negociar o pagamento de dívidas de curto prazo com o FMI (Fundo Monetário Internacional) impactará nas exportações paranaenses, principalmente de veículos e peças, segundo analistas. No entanto, boa parte desse reflexo já foi sentido desde o início da recessão no país vizinho, em 2018, que também levou à busca por novos mercados para a indústria automotiva estadual e nacional.

Não há consenso ainda sobre o peso da decisão do governo Macri, que foi anunciada na noite de quarta-feira (28) após aprovação pelo próprio FMI. A ampliação do prazo de pagamento para as dívidas, segundo o ministro da Fazenda da Argentina, Hernán Lacunza, será somente sobre os títulos de entidades privadas e de curto prazo, que representariam 10% do total. O risco de moratória com calote, porém, ainda assusta.
A avaliação é de que o país vizinho, que já não tem fama de bom pagador, voltará a ficar visado. “Claro que a moratória é sobre títulos públicos, mas mesmo o exportador pode ter dúvidas se receberá corretamente ao vender para a Argentina”, diz o diretor de Pesquisas do Ipardes (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), Julio Suzuki Junior.

Ele afirma que o impacto nos embarques de produtos do Estado para lá sempre será significativo. “Nesse cenário de baixa demanda interna, as exportações têm sido um caminho alternativo importante e a indústria paranaense vinha com desempenho até melhor do que a brasileira com essa opção. Nosso problema é que a Argentina compra muito mais manufaturados, diferentemente de China e União Europeia, que compram mais commodities”, explica Suzuki.
A Argentina é a terceira maior consumidora das exportações brasileiras, mas sobe à segunda colocação em relação ao Paraná, até mesmo pela proximidade geográfica. As vendas para lá a partir do Estado caíram 36,6% de janeiro a julho deste ano ante o mesmo período de 2018 e, no total nacional, foi 40,0% menor no mesmo comparativo, segundo dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior) do Ministério da Economia.
Os produtos mais afetados nas exportações paranaenses são automóveis com motor 1.5 a 3.0 (-45,7%), veículos de cargas menores do que 5 toneladas (-37,7%) e carros de motor 1.0 (-53,7%). Parte dessa perda foi recuperada com a abertura de novos mercados para peças e veículos desde o início da crise no país vizinho, como no caso da alta de 131,4% nas vendas paranaenses para a Colômbia.
Por isso, o professor de economia Joilson Dias, da UEM (Universidade Estadual de Maringá), considera que o reflexo por aqui não aumentará tanto. “Paraná e Argentina compram automóveis e autopeças entre si, então é claro que vai ter algum prejuízo nessa relação, mas a demanda deles vem caindo há alguns anos e não deve cair tanto agora”, diz. “A logística de cargas do Paraná para lá, que é forte, pode sofrer um pouco”, completa.
Dias considera que o maior efeito será sobre o câmbio brasileiro, porque o temor de um eventual calote argentino respinga na imagem de toda a América Latina. “Tanto que já se fala em dólar a R$ 4,50 até o fim do ano, mas são previsões com muita coisa para se ajustar no mercado internacional, como a guerra comercial dos Estados Unidos com a China, que gera insegurança.”
Para o economista e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) Mauro Rochlin, o impacto ainda é imprevisível. Ele considera que o governo argentino criou, com o anúncio de moratória, uma forma de mostrar que tem dólares para fazer frente a um ataque especulativo que surgiu com as primárias eleitorais por lá. “O dólar subiu 25% em um mês com as primárias. Se continuar a subir e os preços internos não acompanharem, nossas exportações perderão competitividade em relação à produção interna deles e vão cair ainda mais”, diz. (Com informações da France Presse)


