O comércio entre os países do Mercosul cresceu quase 400% em sete anos, passando de US$ 4,1 bilhões em 1990 para US$ 20,1 bilhões em 1997, enquanto o valor exportado para todo o mundo nem chegou a dobrar, subindo de US$ 46,4 bilhões para US$ 82,4 bilhões no período. O poder de competição dos quatro países tem crescido, com estabilização, reformas econômicas e abertura comercial, mas o esforço de conquista dos mercados mundiais mal começou. Intensificar esse esforço foi o desafio formulado nesta semana pelo diretor-geral adjunto da Organização Mundial de Comércio (OMC), Jesús Seade, durante a reunião do Fórum Econômico Mundial em Buenos Aires.
A dependência entre os países da região cresceu acentuadamente. Em 1990, o Brasil absorvia 11,5% vendas externas da Argentina. Em 1997, os argentinos destinaram ao mercado brasileiro 30,3% de suas vendas, medidas em dólares. No ano passado, o mercado argentino proporcionou 12,8% da receita brasileira de exportação, US$ 53 bilhões. Em 1990, essa participação havia sido de apenas 2%. Sem o Mercosul, o valor exportado pela Argentina cresceu apenas 57,9% nos sete anos. Pelo mesmo critério, a receita brasileira de exportação subiu ainda menos - modestos 46% nesse período.
Jesus Seade fez questão de acentuar o descompasso entre o crescimento do comércio interno do bloco e o das vendas ao resto do mundo. Não chegou a falar em desvio de comércio, um dos temas prediletos dos críticos do Mercosul, mas ficou perto. O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o uruguaio Enrique Iglesias, negou explicitamente que tenha havido esse desvio, apesar do descompasso. Ao contrário: o Mercosul foi criador de comércio, segundo o presidente do BID, tanto pelo aumento das exportações quanto, principalmente, pela grande expansão das compras externas desde o início da abertura comercial. Prova disso é o déficit comercial carregado tanto pelo Brasil quanto pela Argentina há alguns anos.
Pode ter havido criação de comércio, como disse Iglesias, mas o desempenho, de toda forma, foi medíocre, quando visto globalmente. O déficit acumulado nos últimos anos pode ser explicado em parte pelas políticas de estabilização, mas este é só um dos fatores importantes. Câmbio e demais fatores de competitividade também têm pesado - mas o desajuste cambial, tudo indica, tem perdido importância, considerando-se a baixa da inflação e os ganhos de produtividade acumulados em vários setores.
Os indicadores de competitividade, apesar desses ganhos, continuam muito desfavoráveis. O Brasil apareceu, este ano, em 46º lugar numa classificação de 53 países publicada pelo Fórum Econômico Mundial. A Argentina ficou em 36º lugar e os outros dois países do bloco, Paraguai e Uruguai, não foram listados. As três primeiras posições são de Cingapura, Hongcong e Estados Unidos. As três últimas de Zimbabwe, Rússia e Ucrânia.
A lista pode parecer estranha. O Peru, uma economia muito menos industrializada, está praticamente na mesma posição da Argentina, em 37º lugar, e numa colocação bem melhor que a do Brasil, da Itália (41º), uma das sete maiores potências industriais, assim como da Hungria (43º), da Eslováquia (48º) e da Polônia (49º). O Peru está praticamente empatado com a Itália na avaliação das instituições e da infra-estrutura, ganha longe quando se trata de mercado de trabalho (o italiano é muito mais regulado) e também no julgamento do governo. Ganha do Brasil em abertura econômica, finanças, governo, infra-estrutura e em qualidade do mercado de trabalho.

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