Exportação dá sinal de enfraquecimento
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domingo, 06 de julho de 2003
Agência Estado 
Arquivo Folha
FES 6A 7
Redução do dólar afetou as exportações, ao contrário do que previram os ministros Furlan e Roberto Rodrigues
São Paulo - A exportação pode deixar de ser o combustível da economia. A forte valorização do câmbio - no primeiro semestre, em termos reais, a moeda ficou 11% mais valorizada do que no segundo semestre do ano passado, quando ocorreu o boom das vendas externas - já está afetando a balança comercial, segundo especialistas. De acordo com cálculos da Tendências Consultoria Integrada, a exportação terá um papel bem mais modesto no crescimento deste ano.
No ano passado, a absorção externa (que mede a demanda gerada pelas exportações e pela substituição de importações, isto é, produtos que eram importados e passam a ser produzidos aqui) carregou sozinha o crescimento de 1,5% do PIB. Enquanto a absorção interna (demanda doméstica) caiu 1,3%, a externa cresceu 2,8%. Neste ano, o ritmo de crescimento da absorção externa será de 1,7% e a interna vai encolher 0,2%, resultando em um crescimento do PIB de 1,5%. ''Está havendo uma perda de dinamismo da absorção externa, em grande parte por causa da valorização cambial'', diz Julio Callegari, economista da Tendências Consultoria Integrada.
A discussão sobre a valorização do real e seus efeitos sobre as exportações ficou um pouco ofuscada diante da controvérsia sobre os juros. Mas, na semana passada, o tema voltou a ganhar força ao ser abordado pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. ''Se a taxa de câmbio ficar nos níveis atuais, não só as exportações sofrerão um impacto, como também as importações serão estimuladas'', disse Furlan.
De acordo com o relatório trimestral de inflação do BC, ''a contribuição do setor externo para o crescimento econômico em 2003 deverá continuar sendo positiva, apesar de em menor grau que em 2002''. Os técnicos do BC destacam que, já no primeiro trimestre deste ano, as exportações ''não contribuíram com a mesma intensidade para o crescimento da demanda agregada''.
O câmbio menos favorável já está afetando o bolso dos exportadores. A Karsten, por exemplo, calcula que a valorização do real tenha um impacto de 10% a 15% em suas margens. A empresa catarinense, que exportou R$ 184,1 milhões em toalhas no passado, tinha projetado um câmbio de R$ 3,30 para 2003.
''Mas não vamos reduzir os embarques, estamos numa política de longo prazo e nos comprometemos a exportar 50% da produção'', diz José Roberto Schmitt, gerente de exportação da Karsten. Além disso, conta Schmitt, a empresa usa insumos dolarizados, como algodão, ou importados, caso dos corantes. ''Se o dólar cai,a rentabilidade diminui, mas os custos também.''
Para o economista, ao mesmo tempo em que a absorção externa vai cair, haverá um certo equilíbrio por causa da recuperação da demanda doméstica. A economia do País deve ter um reaquecimento com a entrada de recursos do FGTS e aposentadorias, queda da inflação e consequente aumento da renda real.
Mesmo assim, o impacto na balança ressuscitou o debate sobre intervenção no câmbio. ''Nenhum país emergente pode ter tanta volatilidade no câmbio'', diz o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. O consenso agora é evitar regimes cambiais extremos, como currency board ou flutuação totalemnte livre. ''Estamos convergindo para regimes intermediários, como bandas implícitas.'' Para Belluzzo, o governo deveria administrar o câmbio para manter a taxa competitiva. O economista defende o dólar a R$ 3,50 a R$ 3,60. Cortar a taxa de juros mais rapidamente, reduzir a rolagem da dívida cambial e comprar reservas seriam as medidas mais óbvias.


