Exportação começa a reagir
Agência Folha
De São Paulo
O déficit de US$ 529 milhões na balança comercial de novembro surpreendeu algumas consultorias, que não esperavam valor tão alto, mas não desanimou a equipe econômica. Para Fernando Montero, secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda, poderia ser pior, pela época do ano, tradicionalmente mais pressionada por importações. A confiança dele na volta dos superávits comerciais está baseada em vários indicadores, particularmente no que vem ocorrendo com a quantidade das exportações de manufaturados.
A previsão do governo para o ano 2000 é de um superávit de US$ 5 bilhões, contra um déficit que, em 1999, deve beirar os US$ 2 bilhões. No mercado, há apostas variadas para o ano que vem, muitas coincidentes com a oficial, mas ninguém arrisca falar em novo déficit comercial em 2000. A dúvida é sobre quando os saldos positivos estarão de volta, e que tamanho terão, o que está relacionado ao ritmo da atividade econômica. Se cresce a economia, as importações também tendem a crescer.
Segundo Montero, a recuperação do quantum (volumes) das exportações vem sendo consistente desde maio, liderada pelos semimanufaturados (mais 14,3% no acumulado do ano até outubro) e básicos (5,5%). Os manufaturados ainda apresentavam queda no ano, de 1,5%, mas o economista chama a atenção para o fato de que, na margem (últimos meses), há grande dinamismo. O nível de quantum atual supera em 13% a média de todo o ano anterior.
O índice também alcançou em outubro passado o ponto mais alto (130,9) desde outubro de 1997, o ápice da crise asiática, que, em seguida, esfriou as economias de todo o mundo, com exceção da norte-americana. São esses os principais sinais de que as exportações, finalmente, estão respondendo ao estímulo da máxi do início do ano.
Os manufaturados são os produtos que mais se beneficiam da máxi, lembra Renato da Fonseca, economista da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Ainda sobre os manufaturados, Montero observa que a recuperação do índice de quantum vem sendo mais veloz do que a reação da demanda na América Latina, o principal mercado para os produtos brasileiros. Isso é prova da diversificação. Você cria mercados novos e espera o velho voltar, diz ele. Fernando Ribeiro, consultor da Funcex (Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior), entidade que elabora o índice de quantum, afirma que o crescimento vem sendo maior que o esperado.
Resta esperar que, após o crescimento dos volumes, os preços também se recuperem, deixando para trás a fase de baixa deflagrada pela crise na Ásia, que jogou boa parte do mundo na recessão. Na análise da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o saldo comercial acumulado até novembro de 1999 estaria por volta de US$ 7,3 bilhões, caso os preços do mesmo período de 1998 tivessem sido mantidos.
Um bom sinal dos últimos meses é que o índice de preço do total das exportações brasileiras parou de cair, diz Ribeiro. A reação, por enquanto, está concentrada nos básicos e nos semimanufaturados. A inflação no atacado também é reflexo disso, observa Montero.
Nos manufaturados, a queda de preços está relacionada à própria máxi de janeiro. Com os exportadores brasileiros recebendo mais reais por dólar vendido, os compradores aproveitam para barganhar preços mais baixos. Por isso, Ribeiro classifica como temporária a queda do índice de preço dos manufaturados. Uma vez que o efeito dos preços mais baixos deixe de atuar, a balança melhora. Em 1999 tudo correu contra. Em 2000 tudo pode correr a favor, afirma o consultor da Funcex.
Fonseca, da CNI, traça um cenário favorável para as exportações no ano 2000. Ele prevê crescimento elevado sobre 1999, cujo patamar foi baixo, mas descarta um resultado excepcional. A Ásia melhorou, a Europa deve melhorar, mas os Estados Unidos tendem a reduzir a demanda. O Brasil ficará esperando por uma reação dos mercados latino-americanos, diz ele. A grande dúvida na América Latina é a Argentina, mergulhada em profunda recessão e amarrada pelo câmbio fixo. A situação daquele país, entretanto, também está ligada à atividade econômica no Brasil, grande importador de produtos do vizinho.
O desempenho das exportações também vai depender muito da capacidade da indústria, pois a concorrência é grande no mercado internacional. Os asiáticos desvalorizaram suas moedas há muito mais tempo, diz Fonseca. Além do setor exportador, observa ele, o governo precisa fazer a sua parte. A máxi ajuda, mas há outros entraves que precisam ser derrubados para que as exportações cresçam de forma consistente, diz.





