São Paulo - A depreciação cambial explica boa parte da pressão inflacionária atual, mas não totalmente, avalia o economista e ex-presidente do Banco Central (BC), Affonso Celso Pastore, que acredita num IPCA acumulado em torno de 10% para este ano. Outra parcela significativa dessa pressão vem de expectativas ainda incertas dos agentes financeiros sobre o regime de metas de inflação no próximo governo, além de pequena dose de perda de credibilidade da autoridade monetária nos últimos meses.
''Há um pressuposto inicial de que o grau de tolerância com a inflação será maior no governo Lula do que foi no governo atual. Isso produz esse fenômeno de explosão das expectativas'', afirmou Pastore. Ele lembrou que a maior deterioração das expectativas detectadas pelo relatório Focus, do BC, ocorreu justamente a partir de meados de outubro, quando ficou clara a vitória do PT nas eleições.''A nova administração entra com um déficit de credibilidade nessa área, sobretudo por suas posições históricas em relação à inflação'', explicou. Somente ações efetivas do novo governo no sentido de confirmar o compromisso dos discursos de manter os preços estáveis poderiam eliminar esse tipo de cautela refletida nas expectativas, acredita o economista.
Pastore disse ainda que há outras contradições que terão de ser enfrentadas pelo governo eleito: se quiser ganhar credibilidade entre os agentes financeiros, o BC terá de manter os juros elevados e, consequentemente, manter a economia desaquecida por um período relativamente extenso, mesmo que empresas e sindicatos que apoiaram o PT nas eleições peçam juros mais baixos e maior crescimento. Ele destacou ainda que essa relativa perda de credibilidade do BC - que supostamente estaria mais tolerante com a alta dos preços - tem origem num erro estratégico sobre a natureza do processo inflacionário, que foi o de apostar que a depreciação cambial iniciada em abril seria transitória.

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