Expectativas de final de ano
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de novembro de 1997
Francisco Antônio Feijó 
Com a chegada de novembro, os trabalhadores se atrevem a montar esquemas para liquidar compromissos que se acumularam durante o ano por falta de dinheiro e outros projetos novos, para conclusão em 98.
Tudo isto, contando com o recebimento da primeira parcela do assim chamado décimo terceiro salário, cujo saldo deverá ser pago pelas empresas até o dia 20 dezembro. Todos os anos se repete a mesma situação.
Dívidas que rolaram de mês para mês, a expectativa de troca de uma geladeira ou de um televisor, alguns mais atrevidos, a compra de um carro, enfim, sonhos cristalizados durante dias e noites que podem, pelo menos, em um primeiro estágio, serem iniciados em novembro, com um pequena entrada de sinal e o saldo em módicas 20, 30, 40 parcelas, com juros a combinar.
Aí, começam as complicações que levaram muitos, em 96, a acabar entrando na lista negra do SPC e terem conta bancária encerrada, perdendo objetos adquiridos retirados pelas lojas vendedoras.
É muito fácil comprar. A propaganda é vistosa e à primeira vista, com qualquer dez mil réis de entrada, compra-se qualquer coisa nesta época. O duro é continuar pagando, quando acaba o dinheiro extra recebido, agora em novembro e o saldo em dezembro.
São muitas as expectativas, e de um modo geral, quem mais compra em final de ano, é exatamente aquele contingente de trabalhadores de menor renda, que não deveria insistir em comprar. Alguns chegam a assumir dívidas que, mesmo trabalhando 24 horas por dia, não conseguiriam dinheiro suficiente para saldar, liquidar esses compromissos. E as coisas vão se complicando.
Primeiro, porque a circulação acentuada de dinheiro extra, leva necessariamente a uma aceleração nos índices de inflação. Segundo, porque com uma demanda maior que a oferta, os preços sobem e as taxas de juros aumentam.
Terceiro, porque criam situações irreais, dando a entender que subiram percentuais de vendas, quando na realidade, realmente as vendas numericamente aumentaram, porém, é certo que boa parte das mesmas será transformada em devolução de mercadorias e paralelamente cheques pré-datados, não honrados seguirão o caminho do protesto e do SPC e o trabalhador, mais uma vez terá seu nome levado ao descrédito e ao rol dos maus pagadores.
É difícil evitar que isto aconteça.
A euforia do dinheiro extra que entra, somando a tentação das ofertas, cria fantasia que não podem ser desfeitas, por um simples aviso, uma advertência sincera de que tenhamos cautela, não compremos mais do que podemos assumir de compromissos, porque quando acabar o dinheiro, e entrarmos na realidade do ganho mensal, já comprometido com as despesas fixas mensais, não teremos como enfrentar um cheque que se vence, sobra de mais um final de ano de excessos.
Portanto, quando se aproxima mais um final de ano, é preocupante ver e sentir que muitos trabalhadores já começaram a namorar vitrines e anotar preços, principalmente as condições de pagamento, para esquecendo das parcelas que se seguirão a primeira, investir em compras, nem sempre necessárias, deixando de lado a prudência e o risco.
Todos têm o direito de fazer com o dinheiro que têm, aquilo que melhor lhes aprouver. Entretanto, é bom lembrar que o gasto desenfreado não leva a nada, somente ao aumento dos índices inflacionários e que o consumismo, um defeito nosso, com certeza poderá levar a situações já conhecidas de muitos e todos os anos aumenta em tantos outros que teimam em acreditar que as expectativas de final de ano devem ser enfrentadas e resolvidas com compras, compras, muitas compras.
Conselho de amigo. Gerencie o décimo terceiro salário e com certeza você terá um final de ano feliz.


