O mercado japonês viveu ontem um clima de euforia. O iene, a moeda japonesa, e as ações na Bolsa de Tóquio subiram na expectativa de que o primeiro-ministro japonês, Ryutaro Hashimoto, anuncie hoje um pacote de 16 trilhões de ienes (US$ 120 bilhões) para estimular a economia do país, abandonando sua austera política de contenção de gastos e cedendo a pressões do governo norte-americano e do FMI (Fundo Monetário Internacional). Caso seja confirmado, será o quinto pacote econômico no País desde outubro.
Os quatro anteriores - incluindo uma espécie de Proer (programa de ajuda a bancos em dificuldades) de US$ 250 bilhões - não surtiram efeito. O Japão vive sua pior crise financeira desde a 2ª Guerra Mundial, com desemprego recorde para os padrões do país, crescimento negativo de seu PIB (Produto Interno Bruto) e um risco de deflação. O Banco Central japonês anunciou ontem que os preços caíram 0,4% em março, indicando uma deflação pelo terceiro mês consecutivo.
O Japão detém cerca de 20% da economia mundial, com um PIB de US$ 3,7 trilhões e reservas de US$ 223,5 bilhões. A crise japonesa tem limitado as importações do País, agravando a situação dos vizinhos asiáticos em dificuldades desde julho do ano passado. Os Estados Unidos e a União Européia pediram ao Japão que incentive a sua demanda interna e permita que o país absorva as exportações dos países asiáticos em crise, reduzindo as chances de uma crise econômica mundial.
Ontem, o FMI juntou-se a esse coro. O vice-diretor executivo do fundo, Stanley Fisher, disse em Tóquio que o Japão precisa estimular o consumo interno por meio da redução nos impostos das pessoas físicas e jurídicas. O governo japonês já havia reconhecido a timidez dos pacotes anteriores e sugeriu, nos últimos meses, que medidas mais fortes só poderiam ser anunciadas depois que o Orçamento de 1998 fosse aprovado.
O Orçamento foi aprovado anteontem à noite, o que fermentou o otimismo do mercado. A Bolsa subiu 2,68%, e o iene valorizou-se 0,21% frente ao dólar. Foram variações positivas, mas que não compensaram os resultados sombrios dos últimos quinze dias, quando o iene chegou ao seu valor mais baixo desde 1991 e a Bolsa teve a maior queda em 1998.
O ânimo de ontem também foi causado pela convocação, feita por Hashimoto, de uma assembléia extraordinária do parlamento para discutir a lei fiscal aprovada no final do ano passado e que, ao menos formalmente, impede que o governo reduza impostos. Os mais otimistas esperam que ao menos 8 trilhões de ienes (ou US$ 60 bilhões) do pacote venham sob a forma de cortes em impostos.
Isso seria uma reviravolta no programa de governo de Hashimoto. Quando eleito, o primeiro-ministro apontou como principal prioridade econômica eliminar a dívida fiscal do governo até o ano de 2004. Em termos brutos, segundo alguns parâmetros, essa dívida faz com que o dívida interna japonesa seja a maior entre a de todos países industrializados (87% do PIB para alguns, 100% para outros). Cortar o déficit significa aumentar impostos e reduzir gastos públicos. E era isso que Hashimoto vinha fazendo. Em 1997, ele promoveu um aumento do imposto sobre o consumo, de 3% para 5%, o que reduziu a demanda interna e acelerou o processo de recessão.

mockup