Expansão das fronteiras custará caro ao agronegócio
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terça-feira, 09 de maio de 2006
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
A expansão da fronteira agrícola custará caro para o agronegócio brasileiro. A afirmação é de Paulo Moutinho, coordenador de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Ele participou, ontem, da reunião do Conselho Assessor Externo da Embrapa Soja, realizada na sede da unidade, em Londrina, quando debateu a produção de grãos e a dinâmica do desmatamento na Amazônia.
Segundo ele, a curto prazo, os benefícios econômicos superam as dificuldades de exploração da região amazônica. Extração de madeira, pecuária, agricultura familiar e produção de grãos são as principais atividades realizadas no entorno da floresta. Para viabilizar o uso da terra, o desmatamento se faz necessário, mas, a longo prazo, essa prática inviabilizará a produção agropecuária. Se a derrubada da mata continuar no ritmo atual, 40% da floresta irá desaparecer até 2050, previu Moutinho.
Um levantamento realizado pelo Ipam apontou que 70% da área devastada na Amazônia serve apenas como pasto para o gado. De acordo com o pesquisador, dos 60 milhões de hectares desmatados, 20 milhões são pastagens abandonadas. Antes de desmatar novas áreas, é preciso reocupar esses pastos esquecidos com produção intensiva. Para isso, é necessária uma política de incentivo à agricultura familiar, que siga a lesgislação ambiental e garanta a distribuição de renda sem ocupação desordenada, sugeriu Moutinho.
Ele lembrou que o avanço do desmatamento está diretamente ligado à expansão da sojicultura, que hoje está presente no Mato Grosso e Sul do Pará. A soja ocupa as áreas degradadas, que antes eram destinadas às pastagens. O pecuarista então precisa derrubar mais florestas para conseguir mais pastos. E assim o ciclo não pára, explicou. Já em Rondônia e no Norte do Mato Grosso, a conversão da floresta em lavoura é direta, ressaltou o pesquisador.
De acordo com ele, não existem estudos precisos, mas calcula-se que de toda a madeira retirada da floresta, 75% é clandestina e ilegal. Ausência do Estado, falta de ordenação fundiária que favorece a grilagem e os conflitos agrários e a desinformação da população são alguns dos entraves que contribuem para a perda da biodiversidade da floresta.
Cerca de 50% das chuvas que caem na Amazônia são produzidas pela própria floresta, num processo chamado evapotranspiração. Se a floresta continuar desaparecendo, os níveis de chuva também irão cair, como já vem sendo constatado. E estes efeitos climáticos podem causar desequilíbrio em vários países da América do Sul, informou Moutinho. Para ele, se a fronteira agrícola não avançar de maneira mais equilibrada e racional, a própria agricultura será inviável no futuro.
O desafio, completou o coordenador do Ipam, é valorizar a floresta em pé. A solução para a Amazônia passa pelo desenvolvimento da governança local, que consiste em dar suporte à comunidade, qualificando-a para que ela participe das tomadas de decisão, avaliou.
Para o pesquisador, a produção sustentável da soja pode auxiliar na redução dos custos sociosambientais de áreas de fronteiras antigas, como o Norte de Mato Grosso e Sul do Pará. Já nas regiões de alta pressão da floresta, o desmatamento é destrutivo e é preciso adotar estratégias de proteção dos recursos florestais, concluiu.


