São Paulo- ''Somos iguais àquele equilibrista que trabalha com vários pratos que rodam em varetas'', comparou Jorge Ide, gerente de Atendimento e Relacionamento do Grupo Totvs. ''Quando um começa a perder velocidade, temos que ir lá e rodar um pouco, e depois partir para o próximo.''
O objetivo inicial era tornar as pessoas mais produtivas, mas a proliferação de tecnologias da comunicação pode acabar tendo efeito contrário. De ferramenta de produtividade, a internet tem o poder de se tornar ferramenta de procrastinação. A soma das alternativas para falar com as pessoas - ligações nos telefones fixo e celular, correio eletrônico, mensagens instantâneas e mensagens de texto nos telefones móveis - é capaz de gerar uma sucessão sem fim de interrupções e nenhum trabalho feito.
Lá fora, o conjunto de técnicas para manter a produtividade em meio a tanta tecnologia foi chamado de ''life hacking''. O verbo hackear, no caso, é empregado no bom sentido: melhorar a vida, como se pode fazer com um programa de computador. Nada a ver com invasões ou quebra de sistemas de segurança.
O termo surgiu em 2004, durante o evento ''O Reilly Emerging Technology Conference'', em San Diego, nos Estados Unidos, e foi criado pelo escritor Danny O'Brien, especializado em tecnologia. Ele entrevistou dezenas de programadores para saber como eles faziam para manter a produtividade e compilou algumas técnicas. Hoje há vários sites especializados, como o Lifehacker (www.lifehacker.com) e 43 Folders (www.43folders.com).
A professora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia em Irvine, nos EUA, fez uma pesquisa sobre como os chamados trabalhadores do conhecimento realizam tarefas múltiplas, simultaneamente. Especialista em interação entre humanos e máquinas, ela descobriu que, em média, as pessoas dedicam 11 minutos a cada projeto, antes de serem interrompidos e transferirem sua atenção a outro.
Mesmo os 11 minutos são divididos em períodos menores, com cerca de três minutos, para tarefas como responder e-mails, consultar a internet ou trabalhar em um texto ou planilha. Depois de interrompida, a pessoa demora em média 25 minutos para voltar ao projeto inicial.
O interesse de Gloria pelo tema veio em 2000, quando passou de pesquisadora a professora e sentiu na pele a pressão das tecnologias de comunicação. ''De um ambiente tranquilo de trabalho, passei a ser interrompida toda hora'', explicou a professora, em entrevista por correio eletrônico. Apesar de existirem vários programas e equipamentos para melhorar o fluxo de trabalho, a solução nem sempre é tecnológica. ''Ainda falta padronização para que os sistemas possam se comunicar entre si'', explicou Gloria.
Algumas pessoas preferem criar um arquivo texto, no computador, para anotar as tarefas mais urgentes. Jorge Ide, da Totvs, resolveu concentrar o máximo de tarefas no Outlook, da Microsoft. Ele usa as funções de correio eletrônico e agenda e, para não esquecer de nada, programa lembretes automáticos para si mesmo. O executivo marca as mensagens com bandeiras coloridas (um dos recursos do software), de acordo com a prioridade.
''Tenho colegas aqui que usam outros softwares, mas a maneira de trabalhar é parecida'', afirmou Ide, que tem dois telefones celulares sempre ligados. ''O maior problema é o acúmulo de informação a ser tratada. Sempre que recebo um e-mail ou uma ligação, tento tomar uma ação imediata para que não fique acumulado.''

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