Com excedente de safra de 4 a 5 milhões de sacas, o mercado cafeeiro deve enfrentar uma temporada difícil, altamente competitiva, em que o fator qualidade terá um peso importante para liquidez do produtor. Este foi um dos pontos discutidos ontem, de manhã, durante reunião informal entre as lideran ças do mercado cafeeiro e técnicos do Iapar, Emater e Seab. O encontro foi no Centro do Comércio de Café do Norte do Paraná (CCCNP), com palestras do presidente do presidente da Bolsa de Cereais e Mercadorias do Paraná (BCML), Antônio Abrão, e do presidente do CCCNP, Luiz Roberto Ferrari. Após discussões sobre a nova realidade do setor cafeeiro, os técnicos, divididos em grupos, assistiram degustação no próprio Centro e no escritório do empresário Carlos Antônio Amaral Monteiro.
O Coordenador de Difusão de Tecnologia do Iapar, engenheiro agrônomo Marcos Valentin Ferreira Martins, observou que encontros como o de ontem integram ainda mais os agentes da cadeia produtiva do café. O avanço da cadeia passa por discussões que identificam os gargalos de cada elo da cadeia. Ele considera proveitosas as discussões e choques de idéia. ‘‘Para se encontrar soluções é preciso que os setores exponham seus problemas’’, sempre sem perder de vista a visão de conjunto do setor.
Fatores de qualidade Há um receio do comércio de que os produtores, na busca de redução dos custos, deixem de investir em qualidade. Fazer a colheita de uma só vez, por exemplo, pode reduzir custos, mas implica em perdas de qualidade. Tanto o presidente do CCCNP, Luiz Roberto Ferrari, como o presidente da BCML, Antônio Abrão e seu colega de diretoria, Antônio Amaral Monteiro, procuraram evidenciar que hoje não existem mecanismos de sustentação de mercado: este o papel era exercido pelo Acordo Internacional do Café e Organização dos Países Produtores de Café, no âmbito externo. Internamente, o extinto IBC, era o órgão gestor da política cafeeira.
Com a extinção do Acordo, o mercado ficou à mercê da especulação dos grandes Fundos de Pensão de países consumidores. Esses fundos, que não têm qualquer ligação com o segmento cafeeiro, manipulam o mercado segundo outros parâmetros, alheios à variáveis que tenham alguma relação com a mercadoria, como oferta ou procura, por exemplo. Se o mercado especulativo - forjado por esses fundos - sinalizar para o ouro, por exemplo, os fundos entram ofertando grande quantidade de contratos de café e, assim, deslocam seus investimentos para a outra commoditie. Como consequência, o preço do café desaba e o mundo cafeeiro tem que arcar com as consequências.
Preço histórico Os empresários deixaram entrever que é ilusório apostar no preço histórico de US$ 100/saca. Não existe mais mecanismo que sustente um preço em torno desse valor. É que quando havia o Acordo, toda vez que as cotações, em queda, chegassem a 1 dólar por libra-peso, era acionado o mecanismo de proteção através do qual se retirava do mercado cerca de 2 milhões de sacas de café. Da mesma forma, em situação oposta, toda vez que o preço ultrapassou a US$ 1,20 por libra-peso, o Acordo interveio e evitou alta exagerada da mercadoria. Isto mantinha o mercado e, consequentemente, os preços em patamares estáveis. Os preços oscilavam, como sempre, em função de inúmeras variáveis de mercado (risco de geada no Brasil, por exemplo), mas o mercado era menos especulativo. Hoje o impacto das variações pode ser bem mais forte.
Se antigamente, quando havia mecanismo de sustentação, o diferencial de preços em favor da qualidade para pequeno e não premiava suficientemente quem buscasse qualidade, atualmente a situação é quase oposta. Hoje não há nada que garanta preços referenciais. Daí a necessidade de se buscar qualidade para garantir a inserção e permanência do mercado.
O mercado cafeeiro, principalmente a ponta da produção, tem que estar consciente de que a nova realidade não oferece mecanismos de garantia. Quem quiser sobreviver no mercado tem que oferecer qualidade. Já não é nem uma questão de preços melhores mas uma questão de sobrevivência.
Excedente da safra 98/99 Para uma produção estimada em 34 milhões de toneladas, o País deve exportar 15 milhões de sacas de café verde, mais 3 milhões de solúvel e destinar ao consumo interno cerca de 12 milhões de sacas. Dentro dessas projeções, há um excedente de 4 milhões de sacas. Sem falar no remanescente de 12 milhões de sacas em estoque.
Os números apontam para um mercado ofertado que tende a pressionar os preços para baixo. O presidente da BCML, Antônio Abrão, deixa claro, no entanto, que o Conselho Monetário Nacional (CMN) já autorizou linha de crédito para a comercialização da safra 98/99, o que tende a aliviar a pressão de oferta.Mário CésarEsforço comumTécnicos do Iapar e comerciantes de café, ontem, no CCCNP: base de apoio à qualidade e preço do produtoOswaldo Petrin

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