Ex-presidenciável promete fábrica no PR
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sexta-feira, 27 de março de 1998
Carmem Murara 
Albari RosaAtolado na lamaCaminhão da fábrica russa Uralaz, importado por Zamir TeixeiraO governo lançou na semana passada o anúncio de mais um investimento automobilístico no Estado: a montadora russa de caminhões Uralaz está se instalando em São José dos Pinhais, com um investimento de R$ 20 milhões, alardeado pelo diretor da empresa no Brasil, Zamir Teixeira. Ele garantiu que, em poucos meses, os caminhões russos estarão sendo produzidos e vendidos em todo o País, com incentivos fiscais e financiamento do Finame. Segundo Teixeira, as negociações com a montadora começaram há três anos.
A atração de mais uma montadora - a quinta no Estado - poderia ter sido só comemoração pelo governo do Estado, não fosse pelo currículo de Teixeira. A trajetória do empresário faz com que o próprio governo questione o investimento, anunciado pela Secretaria de Indústria e Comércio. A Secretaria se apressou em mandar a notícia para a imprensa, avisando que o Estado teria a instalação de mais uma montadora. Depois, o governo recuou e disse que não há nada oficial sobre a Uralaz.
O recuo, pelo menos aparentemente, se deve ao currículo de Zamir Teixeira. Natural de Palmeira, ele virou figura folclórica em Campo Mourão. Foi vereador por três vezes no município e depois se mudou para o Acre, onde foi suplente do senador Nabor Júnior. Não satisfeito, lançou candidatura à Presidência da República, em 1989, pelo PCN (Partido Comunitário Nacional). Conseguiu 200 mil votos. Meses antes da eleição, tentou vender a legenda para o apresentador Sílvio Santos, que na época sonhava em transformar o País num Baú da Felicidade.
Em Campo Mourão, o empresário causou polêmica e deixou muitos desafetos. Ele tem 20 títulos protestados no município, onde viveu até o início dos anos 80, até se mudar para o Acre. Os protestos contra Teixeira se referem a cheques sem fundo emitidos desde a década de 60. Se tenho títulos protestados em Campo Mourão? Tenho mesmo, ou melhor, acho que nem tenho mais, responde despreocupado, ao ser questionado sobre as pendências cartoriais. E a política? Zamir garante querer distância de eleições e mandatos. Tudo o que eu fiz e não deu certo, não faço mais, diz, como quem professa uma filosofia de vida.
E vai mais longe: Cheguei até aqui sem nenhum crime nas costas. Não tem um cafajeste que seja amigo meu, conta, orgulhoso. Zamir Teixeira diz que será acionista da Uralaz no Brasil. Mas os cargos de diretoria ficarão com seus filhos Keneddy e Onassis, nomes dados em homenagem ao presidente dos Estados Unidos e ao bilionário armador grego. Esses nomes inspiraram também o seu negócio de venda de roupas usadas importadas da Inglaterra. A rede de lojas K&O é administrada por sua mulher, Sonia.
Zamir Teixeira se auto-intitula idealista, pioneiro e bandeirante. Ele é filho de um dos fundadores de Campo Mourão, Victor Manoel Teixeira, dono de uma serraria na cidade, onde todo morador já conhece suas histórias.
O empresário é conhecido pela boa lábia. Uma das histórias folclóricas mais contadas em Campo Mourão é sobre um homem que, irritado, apontou um revólver para a cabeça de Teixeira na esperança de receber uma dívida antiga. Após cinco minutos de conversa, o credor saiu satisfeito da sala sem o dinheiro e sem o revólver, depois de ser convencido a vender a arma fiado.
Histórias do passado à parte, Zamir Teixeira garante que, agora, vai conseguir atrair para o Estado a quinta montadora. Os caminhões da Uralaz, que no Brasil terão o nome de Urazam (zam de Zamir, o modesto), seriam ideais para circular dentro das propriedades rurais. Um Scania ou um Volvo são para o transporte rodoviário. Os caminhões Uralaz são para o transporte rural, esclarece. Um Uralaz custa cerca de R$ 80 mil. Um Volvo carga pesada custa R$ 110 mil.
Assim como jura que colocará a montadora em São José dos Pinhais, onde também está instalada sua empresa de importação e exportação, Zamir Teixeira assegura que vai viabilizar um sonho antigo: ligar o Brasil ao Oceano Pacífico por uma estrada de ferro de 1,5 mil quilômetros. A ferrovia sairia do Acre e iria até Moliendo (Peru), onde já há 800 quilômetros prontos. Será a redenção da Amazônia, proclama o empresário. Ele diz que o projeto custará somente R$ 1 bilhão. Teixeira já batizou a ferrovia, que só existe no papel, de Transacreana Zam. De novo o zam de Zamir Teixeira, o idealista, o pioneiro, o bandeirante.


