Reali Junior
Agência Estado
As reiteradas declarações do economista do Deutsche Bank em Tóquio, Kenneth Courtis, feitas durante a semana em Davos , na Suíça (no Encontro Anual do Fórum Econômico Mundial), estão fazendo muito mais mal do que se imaginava para a imagem da economia brasileira. Jornais europeus, entre os quais o vespertino Le Monde, reproduzem suas declarações apontando o Brasil e a Rússia como as novas e principais vítimas da ‘‘segunda onda’’ da crise iniciada na Ásia. Eles afirmam que os países asiáticos mais atingidos têm boas chances de recuperação a médio prazo, mas são os países latino-americanos e europeus os alvos de futuros ataques que poderão ocorrer num prazo de seis a nove meses. Isso porque, além de uma certa fragilidade de seus sistemas monetários e, no caso do Brasil de uma supervalorização de sua moeda, esses países poderão ser vítimas de créditos bancários mais bem seletivos.
Em entrevista ao vespertino Le Monde, Kenneth Courtis reitera que ‘‘a Rússia e o Brasil são os dois próximos da lista’’. Ele prevê também que ambos vão ter que enfrentar uma queda dos preços de matérias-primas e de energia e deverão enfrentar uma concorrência cada vez maior nas exportações dos países asiáticos, beneficiados pela desvalorização brutal de suas moedas.
O próprio vice-primeiro-ministro russo, Anatoli Tchoubais, de certa forma confirma essa tendência. Ele lembrou em Davos os maus ventos que sopram a partir da Ásia, atingindo seu país para explicar as dificuldades financeiras que a Rússia está enfrentando. Ao mesmo tempo procura justificar a decisão do Banco Central russo de aumentar bruscamente, na sexta-feira, as taxas de juros para defender sua moeda, o novo rublo.
Repercussão Os mesmos analistas lembram que o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou perplexos os homens de negócios quando de sua intervenção em Davos, ao explicar, contra a opinião da maioria dos participantes, que o Brasil não havia sido e não seria atingido pela crise asiática. Partidário de uma política de ‘‘estabilidade’’, ele julga inútil qualquer desvalorização da moeda brasileira.
Na mesma linha de raciocínio manifestou-se o governador do Banco Central do México, Guilhermo Ortiz Martiznez, que esteve em Davos para explicar aos asiáticos como seu país conseguiu sair mais rápido do que se imaginava de sua crise financeira anterior. Ortiz aproveitou para desmentir que o governo mexicano estava disposto a permitir uma gradativa desvalorização de sua moeda para estimular suas exportações. Se o plano de urgência do FMI, bancos comerciais e outros organismos internacionais parece ter conseguido sustar a crise, a maior parte dos observadores acreditam que o período de ‘‘calmaria’’ será relativamente curto e provisório, aguadando-se uma segunda vaga que poderá alcançar os países do leste europeu e latino-americanos.

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