Europa insiste em manter subsídios
Clóvis Rossi
Agência Folha
No dia seguinte a um protesto tão formidável que impediu até a poderosa secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, de discursar em seu próprio país, a União Européia decidiu tomar a liderança nas negociações para romper o impasse na 3ª Conferência Ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio), que ameaça até a convocação da Rodada do Milênio, o novo e abrangente ciclo de negociações comerciais.
Pior para o Brasil: o texto que os europeus lançaram como base para negociações não prevê a eliminação do generoso leque de medidas de apoio à agricultura, ao contrário do que exigem os brasileiros. Fala apenas em substanciais reduções progressivas dos subsídios à agricultura. Mais: mantém o conceito de multifuncionalidade, rotulado de preocupações não comerciais , ou seja, a idéia de que agricultura não é apenas plantar e vender batatas, mas preservar o meio ambiente e o modo de vida rural com tudo que isso implica.
O que mais assustou a delegação brasileira foi a impressão inicial de que os Estados Unidos, mesmo a contragosto, já estavam aceitando a posição européia sobre agricultura.
Até ontem, ao contrário, os norte-americanos estavam aliados ao Grupo de Cairns, o conglomerado de 18 países produtores agrícolas, Brasil incluído, que pede a total eliminação dos subsídios.
Mais tarde, no entanto, a impressão inicial se desfez. Um boletim especializado em comércio, o WTOWatch , informava que as diferenças entre EUA e União Européia continuavam agudas.
Combinava com essa informação o fato de o secretário norte-americano de Agricultura, Dan Glickman, ter feito hoje discurso em que reiterou as posições norte-americanas e voltou a falar em importantes diferenças com a Europa em torno dos subsídios à exportação de produtos agrícolas. O temor da delegação brasileira se deve ao fato de que UE e EUA, como os dois grandes atores da cena econômica e comercial planetária, acabam tendo peso obviamente decisivo em qualquer negociação comercial, quando resolvem suas divergências.
O documento europeu contém, de todo modo, um ponto favorável ao Brasil: propõe uma revisão escalonada do mecanismo antidumping, ou seja, as regras que permitem a um país impor defesas contra exportações praticadas a preço de custo ou até abaixo (o dumping).
O Brasil tem como outra prioridade em Seattle modificar o sistema de antidumping, sob a alegação de que vem sendo usado como mecanismo protecionista pelos países ricos.
Padrões trabalhistas O presidente norte-americano Bill Clinton defendeu ontem, em entrevista exclusiva ao jornal The Seattle Post-Intelligencer, a tese de que padrões trabalhistas fundamentais deveriam ser incorporados a acordos comerciais, mas deu um polêmico passo além: defendeu sanções para países que não cumprirem acordos comerciais contendo padrões trabalhistas básicos.
Até agora, a posição norte-americana se limitava a defender a criação de um Grupo de Trabalho no âmbito da OMC para discutir a vinculação entre
comércio e padrões trabalhistas básicos.
Consequência inevitável: uma revolta entre os países em desenvolvimento. Muitos deles podem aproveitar a oportunidade para afastar-se da idéia da convocação de qualquer nova rodada de negociações comerciais , admitia hoje o tailandês Supchai Panitchpakdi.





