Euro começa a vigorar a partir de hoje
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sexta-feira, 01 de janeiro de 1999
Agência Folha 
Nasce oficialmente hoje a moeda européia depois de quase meio século de gestação. O euro, que substituirá as divisas de 11 dos 15 países que integram a União Européia, surge como um desafio à hegemonia do dólar norte-americano, a atual moeda-chave no mundo.
O processo de unificação européia, iniciado logo após o final da Segunda Guerra, terá no nascimento do euro seu marco decisivo. Afinal, países renunciam a símbolos nacionais fortes, como suas moedas, em nome da supremacia continental. É por isso que alguns analistas vêem considerando o dia de hoje como uma data histórica sem paralelo.
O euro poderá ampliar a força política e econômica do continente em âmbito internacional. Juntas, as nações que adotam a moeda produzem anualmente uma riqueza de US$ 6,54 trilhões, contra a de US$ 8,1 trilhões dos EUA. Se os outros quatro países do conglomerado adotassem a nova moeda hoje, no entanto, a cifra chegaria a cerca US$ 8,2 trilhões. No comércio internacional, o peso da eurolândia é maior - participa com 20% das exportações, contra 16% dos EUA e 7% do Japão.
O euro nasce hoje, mas só deverá ser adotado, na prática, a partir desta segunda-feira, quando o mercado europeu será reaberto após o chamado fim de semana da conversão - uma operação que chegou a ser comparada ao bug do milênio, a pane que ameaça computadores na virada do ano 2000.
Mesmo com o nascimento do euro, os franceses ainda terão de pagar suas baguetes usando francos e os alemães ainda comprarão salsichas com notas de marcos, divisas das quais ambos os povos tanto se orgulham. Afinal, as moedas e notas em euro só chegam às mãos das pessoas comuns daqui a três anos.
Estima-se que 13 bilhões de notas de euro começarão a circular em janeiro de 2002, quando finalmente substituirão as 11 moedas locais em todas as operações econômicas e financeiras até julho do mesmo ano. Até lá, produtos serão cotados em euro e na moeda local, bancos oferecerão contas em euro e empresas terão ações cotadas na nova moeda. Comerciantes já poderão adotar preços em euros e utilizar valores na nova moeda em cheques e em cartões de crédito. Contas correntes poderão ser abertas e movimentadas com a divisão européia.
A moeda única começou a ser concebida pelos líderes europeus desde o final da Segunda Guerra. O marco para sua adoção efetiva foi julho de 1990, quando ocorreu a liberação do movimento de capitais na maioria dos países da região. Dois anos depois, com a assinatura do Tratado de Maastricht, os países estabeleceram as diretrizes para a adoção da moeda única. Dos 15 países que formam a União Européia, quatro ficaram de fora. A Grécia não conseguiu ajustar suas finanças de acordo com os requisitos necessários para adotar a nova moeda. O país pretende estar pronto em 2001. O Reino Unido, a Suécia e a Dinamarca optaram por não aderir ao grupo e não definiram data para isso.
Uma das razões para a unificação monetária é que a moeda única facilitará o comércio e investimentos dentro do próprio continente. Diminuirá despesas com pagamento de comissões cambiais, eliminará o risco de flutuações e facilitará a comparação de preços. Somente com essas vantagens, calcula-se uma economia que pode chegar a US$ 32 bilhões, o equivalente a 0,4% do PIB europeu.
Os dois outros motivos para adotar a moeda única já foram mencionados. O euro poderá aumentar o poder político e econômico da Europa no mundo e contribuir para uma maior integração regional, o que pode evitar, assim, conflitos armados, uma vez que os países terão de adotar de comum acordo medidas econômicas.
A moeda que foi idealizada por políticos liberais no começo desta década será adotada por líderes social-democratas, a maioria recentemente eleita. Se, a princípio, a saúde das finanças públicas era o que mais importava, agora a Europa hoje se preocupa com o desemprego, que atinge quase 11% da população economicamente ativa da eurolândia.
O embate que está sendo travado hoje envolve o Banco Central Europeu, responsável a partir de agora pela política monetária da região, e líderes dos 11 países, que querem uma maior redução de juros. A medida ajudaria a manter o ritmo de crescimento do bloco e poderia contribuir para uma maior oferta de empregos. O BCE mantém os juros a 3% ao ano e resiste em anunciar novos cortes, pois podem levar a um aumento da inflação.


