Tóquio - A proposta brasileira de dar uma solução ao caso das patentes de remédios na Organização Mundial do Comércio (OMC), feita neste fim de semana pelo chanceler Celso Amorim a vários ministros em Tóquio, causou reações opostas por parte dos governos. De um lado, Brasília recebeu amplo apoio da Europa. De outro, a proposta está sendo abafada pelos Estados Unidos.

O fato que melhor ilustra como o tema é delicado foi a insistência da ministra de Relações Exteriores do Japão, Yoriko Kawaguchi, de simplesmente negar que qualquer tipo de proposta tenha sido feita durante o fim de semana. ''Não houve nenhuma proposta brasileira'', garantiu a chanceler em uma conferência de imprensa para quase cem jornalistas de todo o mundo. A razão de sua atitude foi o compromisso que acertou com Washington de não divulgar a iniciativa brasileira.

Segundo a sugestão do ministro, caso um país queira importar genéricos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) daria um atestado que comprovaria que o governo não tem capacidade de produzi-lo localmente e que, portanto, necessitaria importar o remédio.

A proposta solucionaria o principal obstáculo das negociações, que se refere à autorização que países pobres teriam para importar remédios genéricos, que em geral são 40% mais baratos que os produtos patenteados. O problema é que a Casa Branca se opõe à esse ponto do acordo, querendo limitar a autorização de importação apenas a doenças como malária, aids e tuberculose para não prejudicar suas empresas farmacêuticas.

Os Estados Unidos tentaram de tudo para minimizar a proposta para evitar uma reação negativa por parte de suas empresas. ''Não foi exatamente uma proposta'', explicou o representante da Casa Branca para assuntos de Comércio, Robert Zoellick, que acusa os demais países de estarem tentando ampliar o tema e tirar o foco dos debates de temas essenciais como o combate à aids.

Já os europeus garantiram total apoio e afirmaram que irão procurar a Casa Branca para indicar que a proposta de Amorim ''é a mais adequada e que deve ser aceita''. O comissário da União Européia (UE), Pascal Lamy, a qualificou como ''construtiva''. ''A UE apoiará a proposta pois acreditamos que ajudará a dar uma solução ao caso'', afirmou o comissário.

Fim do encontro Tóquio - Depois de três dias de debates intensos e, em alguns momentos até ásperos, ministros de mais de 20 países concluíram seus encontros em Tóquio sem conseguir afastar o fantasma de uma crise de credibilidade na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Ontem, no último dia de reuniões, os países acusaram uns aos outros de estarem atrasando as negociações.

Já o Brasil saiu da capital japonesa com o sentimento de que pelo menos conseguiu preservar os interesses nacionais na agenda central da OMC.

A reunião convocada pelos japoneses confirmou que existem divergências enormes entre os membros da OMC que terão que ser solucionadas de forma urgente se quiserem que as negociações de fato terminem em 2005, como estava previsto desde 2001.

O comissário de Comércio da União Européia (UE), Pascal Lamy, deu um dos sinais negativos da reunião ao afirmar que acreditava que somente em setembro, na reunião ministerial da OMC, em Cancún, é que se poderia dizer se o prazo de 2005 será cumprido.

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